Ballet das Casuarinas, um curta metragem rodado em Arraial do Cabo!

Atualizado: Set 20


Ballet das Casuarinas - Roni Diniz, por Luccas Vato, Curta Metragem em Arraial do Cabo

"O que é não-viver? Não sentir, não perceber. Reduzir tudo ao pensamento. Viver diz respeito, antes de tudo, ao corpo, à experiência, aos riscos; viver é do departamento da coragem." Viviane Mosé

Lembro-me da primeira vez que eu estava chegando em Arraial do Cabo de ônibus após 10 horas de viagem, foi a primeira viagem que eu fiz sozinho e sem conhecer o destino. Um ímpeto inexplicável e inadiável do meu coração. “Será que este lugar existe mesmo?” “Será que vou surtar ficando tantos dias sozinho?”, “Será que vou me arrepender?”, “Gastei dinheiro a toa?”


De repente, de manhã, após uma noite mal dormida no ônibus, começo a ver os terrenos de salinização e inúmeras árvores da mesma espécie que pareciam falar de tão expressivas, pareciam esculturas beirando às margens das praias, eram as tais casuarinas modeladas pelos ventos atrozes da famosa região dos lagos no Rio de Janeiro. Esta viagem foi um marco na minha vida, já retornei a Arraial várias vezes, e já postei inúmeros registros subindo nas minhas redes sociais ou dançando ao lado de uma casuarina, o que eu chamo de "meditadança", uma dança livre que nasce no silêncio mais profundo do meu ser e encontra ressonância natural com a Natureza.

Em uma das viagens, um dos diretores da UFRJ estava na praia e veio me perguntar se aquilo era dança ou Yoga, ele estava com as filhas, trocamos uma rápida ideia e fiquei de ir apresentar o Espetáculo MÃE um dia no Rio.

Então nestes sincronismos da vida, no ano passado fui passar a semana do meu aniversário em Arraial. Conheci o Luccas Vato no hostel onde me hospedei, ficamos horas conversando sobre física quântica, crenças limitantes e aprendizados da vida, o Lucas é um talento no Audiovisual e trocamos muitas experiências sobre arte e vida. Até que um dia antes do meu sábado de aniversário ele me convidou para participar de um projeto poético no qual ele tinha tido os insights observando a dança das casuarinas na praia! Enfim alguém me entendia?


No meu último dia em Arraial, acordei mais cedo e fomos gravar… Utilizei o meu estudo com a dança-performance para disparar as ações e partituras sugeridas pelo Lucas. Nada de gravar e regravar para pegar cortes, coisa e tal... Tudo foi real e irreproduzível! Mesmo se eu criasse coreografias, acredito que jamais atingiria a profundidade a qual acessamos, com uma mente ligada, mais preocupada em acertar do que em viver. No contexto nacional já despontavam protestos e críticas aos crimes ambientais e às queimadas. Além disso provavelmente você sabe que a árvore e a floresta tem um simbolismo rico e profundo em nossa psique. Mas antes de tudo ali eu me alonguei, me aqueci, me silenciei e perguntei às Casuarinas: “O que vocês precisam dizer ao mundo?” E você consegue silenciar pra ouví-las?


Convido você a se permitir sentir o que quer que venha a tona ao assistir estes vídeos e a comentar aqui nos comentários ou lá no Youtube, como preferir.


“Árvores são poemas que a terra escreve para o céu...”

Khalil Gibran.


O homem moderno desconectado de si mesmo e disperso com todas as suas próprias criações tecnológicas e idealismos, vimitizou-se em sistemas tão periféricos que padece como uma máquina desligada da própria fonte, abandonado por si mesmo.

Mas o instinto no fundo da psique humana guarda eternamente um chamado ao paradoxo que abriga o infinito dentro de sua finitude, uma floresta interna, um pulsar que traça um mapa sensorial e o traz inevitavelmente de volta à floresta, à sua própria natureza, tão negada e paradoxalmente explorada, colonizada. Há um sábio guia e guardião escondido no fundo do temido poço das próprias emoções do homem!



Sob a plenitude da luz do sol da manhã, mente quieta e corpo vulnerável, nasce a dança espontânea de uma redenção consciente entre magnetismos para um novo reconhecimento de si mesmo e de seu entorno. Cada ser vivo, cada animal selvagem guarda um lembrete ancestral, um reflexo, uma potência que o convida de volta para dentro de si mesmo.


Passando pelos arquétipos masculinos organicamente evocados, lidando com a própria luz e sombra, paz ou agressividade, sem negações, mas reaprendendo a conduzir a própria energia com autorresponsabilidade. As forças arquetípicas são integradas e transcendidas desde o homem primitivo ao iluminado, do curador ao tóxico, do filho ao pai, do macro de volta ao micro, o todo no micro e o micro no todo…


A coragem da entrega à dança desenha uma qualidade específica de vulnerabilidade que costura as expressões e dão um ritmo. Eu chamo de "A Potência da Vulnerabilidade Consciente". Precisamos evocar o nosso guerreiro interior para começar este caminho e a cada vez que o medo ou a dúvida aparecerem, mas o guerreiro desenvolveu escuta o suficiente e a capacidade de aquietar-se para contemplas a simplicidade e tudo o que nasce da Vulnerabilidade. Frente ao guerreiro brinca a criança, investiga o cientista, inspira Afrodite a Deusa do Amor, um coração em chamas crísticas e estado de rendição assiste a tudo e acolhe sem julgamentos, enquanto alquimiza tudo o que vem a tona um velho e sábio mago, abrindo os portais enquanto registra tudo em seu grande livro, relembra, distingue, cria e recria ou simplesmente toma consciência, partilha consciência. Ufa! Tudo isso são metáforas para tentar dizer o que é para mim a tal da Potência da Vulnerabilidade Consciente.


Nasce e floresce assim como a dança ascendente da oculta seiva das Casuarinas, árvores extremamente flexíveis capazes de sobreviverem em situações muito inóspitas como as áreas salinizadas das praias de Arraial do Cabo. Suas sementes assim como os pássaros, como a vibração sonora do verbo, viaja por entre os ventos para recitar o poema da grande Mãe e propagar a germinação de novos tempos. Suas raízes destemidas resgatam os ancestrais. Tornaram-se mais longas e profundas a ponto de ancorarem um corpo que não teme dançar por entre os ventos mais fortes, guardando os caminhos até a praia, rumo a imensidão e ao sagrado coração dos mares que todo homem também traz no peito e pulsa em tudo o que vive!


"...nós as derrubamos e as transformamos em papel para registrar todo o nosso vazio." Khalil Gibran


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