ME MUDEI DE CASA EM PLENA QUARENTENA!

Atualizado: há 5 dias



Não recomendaria, mas não me arrependo. É inevitável que todo o processo e minhas escolhas se tornem reflexões.

Percebo que o estado de "mudança de casa" que acessei é como uma gaveta minha cheia de sentimentos muitos deles também densos aos quais tive uma boa chance de rever...

Rever não por culpa, mérito ou demérito do processo em si, mas pelo modo como eu pude interpretar e sentir cada uma das incontáveis mudanças de casa que eu já fiz nestes 34 anos. "Já morei em tanta casa que nem me lembro mais..." me cai como uma luva.


E não importava se eu estava indo para um lugar melhor ou pior, a cada mudança a melancolia e os sentimentos de perda eram os mesmos... Talvez, quis a santa quarentena que eu tivesse esta oportunidade de limpar mais esta gaveta para eu me esvaziar ainda mais e receber o novo que me flerta e me seduz já há um tempo.

Talvez foi minha alma que se aproveitou da prerrogativa deste momento para me dar mais esta chance e chacoalhada de olhar e transmutar mais sentimentos que não me servem mais... E ao atirar tanto daquilo que é apenas matéria ao lixo, o convite me era tão claro:

> De perceber e sentir a gratidão por cada objeto e história atrelada a ele...

> De iluminar com a consciência o que ainda me faz reter, guardar ou cultivar, não para me ressentir e reprimir, mas para me tornar mais consciente.


É preciso leveza e espaço para sentir o prazer de uma dança!


Os pesos nos seguram.


Meu novo quarto é menor, mas minha versão de hoje não é mais aquela que sofria tanto frente às chances de viver um novo hoje por medo ou apego a tanta "tralha"... Perdão, não são tralhas, são “resquícios de processos”!

Mas talvez eu não escreva uma tese sobre cada um dos processos de teatro ou de dança que duraram de 1 a 3 anos cada...

Eu teria material valioso para isso, cada um deles mereceu e ainda merece a dedicação que lhes ofertei naturalmente, por amor ou pela seriedade do mergulho e autoconhecimento que me motivaram e me proporcionaram...

Até os cadernos da faculdade, cursos e palestras mil com anotações e insights que só de lançar os olhos me evocam o conhecimento adquirido e as portas que foram abertas...

Os poemas perdidos pelas últimas páginas...

Ah! Esses eu arranco a folha e decido que manterei!

Ainda que muitos dramas poéticos não me caibam mais, eu ainda os contemplo e respeito pelo que são, pela versão antiga de mim mesmo que viveu aquilo de forma tão honesta.

Quantas caixas ainda a esvaziar que obviamente não cabem mesmo aqui!


Vamos sem pressa e na humildade.


Mas que alívio! Estou pronto para deixar ir mais e mais, pois sei que a matéria que se desprende não cancela a experiência, o afeto, a saudade e nem a minha capacidade de sentir... Nada se perde!

Eu quase chego a me criticar, por ser artista e materializar tantos objetos, tantos sentimentos e narrativas!

Mas logo em seguida, me acalmo, lembrando e percebendo o valor tem o dom de tornar tangível algo abstrato, partilhar e usufruir em coletivo suas utilidades ainda que temporárias.

Mas então por que guardar e guardar? Talvez na esperança inexata de tão logo ou um dia precisar?

Sei lá! Estas são algumas das desculpas. Uau! Quanta coisa eu já precisei, mas nem sabia que eu tinha... Como assim?!

Ou até que soube, mas não tinha tempo hábil para procurar e encontrar...

Pera aí! Então, eu tinha, não usei nem quando precisei e ainda assim retive aqui este espaço ocupado e todo o seu trabalho decorrente no transporte e na manutenção?

Estou sendo injusto de novo! Claro que houve sim coisas que precisei, lembrei, achei, usei e me agradeci por ter tido este cuidado! Quanta coisa guardei para outras pessoas e cujas emoções ao rever não puderam conter?! Estão aqui desenhos que minhas sobrinhas fizeram e hoje já são mães.

Mas o fato é que esta conta talvez nunca se feche e talvez seja melhor apenas respeitar o momento atual em que se vive, seja de guardar ou de soltar, esvaziar… Vou respeitar também o momento de entulhar sem julgar...


Parece que o planeta tem optado pela segunda opção, a de soltar!


E sabe, neste ato pode haver sim algo do qual eu me desfaça e amanhã "precise". Talvez seja também esta coragem e desapego ao qual o momento nos convide. Ficando aberto e receptivo até para o que retornar talvez, sabemos que nunca volta igual.

Eu respeito minha decisão de manter agora, mesmo aquilo que racionalmente sei que não usarei, pois sei que não impedirá a avalanche libertadora desta limpeza de hoje!

Há diários depressivos que embora superados, já agradeci muito por tê-los relido em outras mudanças passadas e ter acessado aquele jovem tão platônico que eu fui e uma parte dele ainda está aqui boquiaberto.

Reler foi quase como SER os ouvidos que eu precisei tanto naquele tempo sem encontrar.

Mas hoje também vou respeitar minha intuição de desapegar, me tranquilizar com a percepção que tenho dele em meu coração para sempre identificar se ele retornar para conversar.

Para amá-lo e abraçá-lo, não preciso mais me chafurdar em sentimentos velhos...


O lixo vai sendo cuidadosamente separado, um é reciclável e o outro vai para doações, me conforta o fato de saber que será renovado ou talvez reutilizado, assim como eu também me permito ser, busco renovar e aceitar receber mais...

É bom assimilar que aqui na linguagem e lógica do coração sempre “cabe o que não cabe na dispensa” e nada é lixo, tudo é aprendizado e profundo acolhimento, adubo do meu jardim!

Aceitar que há coisas volumosas de usos esporádicos, mas que valem sim a pena manter mesmo assim! Que os critérios são tão vitais quanto falhos e temporários.


O que ainda faz sentido guardar?


Sabe, geralmente não são estas coisa volumosas que ocupam mais espaço, mas sim as muitas pequenas coisas juntas que vão sendo mantidas de forma inconsciente, por falta de revisão constante, preguiça da faxina, urgência dos dias, etc.

O trabalho é meu e faço questão de olhar calmamente tudo aquilo que vou me desfazer.

Sim, há CD's que não ouvirei, mas ainda permanecerão aqui, pelo menos, talvez quem sabe, até a próxima mudança...

Há cartas e cartões que não lerei, mas merecem este espaço sem-pressa para irem, sem arrogância para ficarem...

Mas a cada ano se afina mais a minha percepção e responsabilidade ao escolher o que fica mesmo aqui, pulsando memória e assim emanando convites à repetição em minha casa em meus mundos.

Eu vou guardar meus boletins com minhas boas notas, os elogios e os inúmeros certificados de cursos e oficinas sim, pelo menos por enquanto.

Eu vou guardar meus portfólios, os álbuns de formaturas naqueles estojos bregas e naqueles álbuns fuleiros da Kodak com seus plastiquinhos…

Vou guardar sim os desenhos que ganhei dos sobrinhos e outras crianças, mas só alguns... Um ou dois de cada.

Vou guardar até o diploma da Pré-Escola assinado pela professora que eu jamais lembraria o sobrenome, mas sempre lembrei que era Claudia.

Tá bom, vou repensar sobre os portfólios que são muito grandes e os que nunca usei ou já faz muito tempo.

Jogo fora 80% dos cartões de visita pois eu raramente procuro algum contato por eles, mas adoro receber e entregar o meu.

É que o fato de ser eternamente útil ou usável, nem sempre determina a importância das coisas e o direito delas de existirem! Precisaram nascer, para serem inesquecíveis ou para provar o quanto eram dispensáveis...

E lá se vai 50% de alguns figurinos e acessórios de Cena que já usei no palo.

Mas os do espetáculo MÃE são tão poucos, só me desfaço dos véus brancos que fui testando até chegar ao último e escolhido.

O troféu de 5 anos numa empresa na qual não me sentia valorizado e respeitado eu vou me desfazer sim. Mas é tão bonito. Por que raios eu o mantinha? Talvez ele me fazia sentir mais guerreiro e merecedor do que não tive? Do que suportei? Reconheço tudo o que aprendi ali e os benefícios que me convenceram a me demorar mais e mais, honro os tantos que me ensinaram e me apoiaram e deixo irem com gratidão!


Entendo que quando guardo é sob os critérios da minha versão atualizada de hoje, deveria ser, ela não se nega a ver as velharias, acolhe, coexiste, mas libertou-se de muitas coisas que foram importantes, mágicas e lindas lá, mas já se foram... Merecem voar livres como eu sou. E sempre podem retornar melhores, mas nunca iguais, pois também nunca me reencontrariam totalmente igual e a graça talvez seja esta, ainda assim nos reencontrarmos e nos queremos de novo ou não.

Então, Let it be…

Talvez o segredo seja deixar as coisas sempre expostas, evitar tantos armário e gavetas.

Mas quem consegue e por quanto tempo? Não, não há nenhum erro em guardar, até as sementes e a lua se revezam entre oculta e exposta.

Mas quero saber os recursos que eu tenho, para usá-los mais e melhor e também estar mais leve para transitar.

Quero manter e cultivar consciência para liberar o que não uso mais para quem possa ser útil! Mas não por obrigação, misticismos, pressão ou moralismos.

Acolher também o caos sem se identificar com ele e testemunhá-lo, agindo quando me cabe... No ir e vir escolho perceber e soar com esta música cíclica da natureza para dançar entre o “marinar” ou fluir…


"É preciso ter o caos dentro de si para gerar uma estrela dançante." Friedrich Nietzsche

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PS: Escrevi este textão na semana em que me mudei, no final do mês de abril, bem em meio ao caos e partilho agora. Quem sabe não casa com muito que muitas pessoas estão vivendo agora, mesmo que em escalas diferentes?!

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Grato pelo acolhimento.

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© 2016 Roni Diniz . Ator, Fotógrafo e Designer Gráfico.