• Textão

Pare de violentar o próprio corpo!


Nos indignamos quando tomamos conhecimento de algum marido que ainda trata a esposa como empregada, abusando e expondo suas fragilidades, anulando o seu prazer, expressividade, direito de usufruir a vida, de ser reconhecida e aceita em sua individualidade, mas saiba que você pode estar em um comportamento vicioso abusivo semelhante contra um parceiro vulnerável e ainda mais próximo de ti do que qualquer parceiro afetivo: o seu próprio corpo!

Pode parecer uma analogia estranha, eu sei, mas pare para pensar, será que demonstramos amor, gratidão e investimos tempo para conhecer e amar o próprio corpo? Você negocia ou impõe suas decisões sobre o seu corpo? Baseado em quais valores e crenças? Em nosso tempo muitas pessoas somente reconhecem certas partes, músculos, juntas, quando estes doem muito e podem doer ainda mais! Quando isso ocorre, costumamos correr para anestesiá-las com bebidas, sexo inconsciente, drogas ou remédios. Que cruel indiferença e abuso! No entanto, é graças ao nosso corpo que vivenciamos esta existência, que temos a liberdade de ir e vir, agregar aprendizados infinitos, trocar relações com outros seres e com os lugares por onde passamos. Mas a maioria de nós, muito mal dedica escassos minutos para os cuidados básicos de higiene e, geralmente, só priorizamos isso quando precisamos demonstrar algum status de asseio e beleza estética por trabalho ou conquista, etc. Talvez você, independente de qual seja o seu gênero, fique horrorizado ao tomar conhecimento de maridos que ostentam suas esposas como se fossem troféus, mas não demonstram amor e muito menos ainda se asseguram de sua auto expressividade e bem estar. Mas será que não estamos reproduzindo justamente este padrão de comportamento contra o próprio corpo, usando-o como mero status de poder, por ego ou competitividade desregrada como uma máquina produtiva, acusando-o severamente quando não está dentro das próprias expectativas? A autoculpa não é a solução para este abuso ancestral, mas talvez a ampliação da consciência ajude muito e o retorno do nosso olhar e consciência para um dos maiores guias, diário de bordo e parceiro da nossa jornada aqui: nosso templo de carne e osso!

Quais são as memórias que estão ficando impressas por nossas peles e tecidos? Cuidado amoroso e autoaceitação ou a pavimentação e mutilação? A aceitação ou a sua escravização em prol dos ideais e padrões? Talvez você fique perturbado (a) ao tomar conhecimento de maridos que humilham a própria esposa comparando suas formas estéticas às modelos das propagandas, mutilando seus sentidos ao torná-las reclusas em burcas ou outros tipos de cativeiros, humilhando-as e imprimindo-lhes abuso moral e emocional, mas, independente de qual seja o seu gênero, como tem tratado o seu próprio corpo e como alimenta esta relação consigo mesmo?

Talvez você ainda traga traumas de pais inconscientes que jogavam na sua cara cada centavo que gastavam com seu sustento enquanto bradavam orgulhosos o quanto estes fatos representavam provas incontestáveis do amor por você... Você sabe que apenas atender necessidades físicas básicas e sociais não são demonstração de amor! Esta analogia não tem o intuito de reacender brasas inúteis de mágoas contra os seus pais, com certeza eles reproduziram os modelos de criação que receberam e hoje você tem a chance de ponderar e dosar as coisas com puro conhecimento de causa e novas possibilidades, ao voltar o foco para si e suas escolhas. Nenhuma das analogias expressas aqui tem a intenção de banalizar o abuso às mulheres e a relevância dessa luta, pelo contrário, propor um exame mais sutil das posturas abusivas que existem em escalas menores, dentro de nós, como o abuso ao próprio corpo. Os padrões de abuso podem se apoiar em posturas comportamentais ainda mais sutis e veladas, como a corrupção que tem início em roubos pequenos e “inofensivos” e vão se alastrando, a corrupção que é tão facilmente vista no outro, mas é difícil assumir quando mora em nós mesmos, ainda que em escalas menores. A analogia do abuso neste texto, inclusive, pode ser substituída facilmente por outras sem perder o efeito, como a opressão às crianças e aos animais… Nosso corpo também é nossa criança, merece ser conhecida na essência e valorizada, para vivermos, primeiramente com nós mesmos, uma relação de respeito e prazer mútuos! Será que não temos submetido o próprio corpo aos maus tratos mais desumanos, inclusive sexuais e emocionais para suprir suas carências e vícios, sob o puro pretexto de compensação por “suprir-lhes” as necessidades físicas? Existem muitos meios de restabelecer uma relação amorosa e verdadeiramente produtiva com o seu próprio corpo!

Que tal começar treinando a escuta do próprio corpo? O corpo não fala a nossa linguagem verbal, mas a sua comunicação é incontestável, porém, na maioria das vezes não aprendemos isso e nem treinamos, nos contentamos em resolver rapidamente suas queixas em prol de dar conta das demandas “mais urgentes” e intermináveis até que ele declare greve ou falência! Mesmo profissionais como médicos, artistas e terapeutas que lidam diariamente com a linguagem corporal também incorrem em abusos impressos ao próprio corpo, camuflando esses maus tratos em forma de urgências secundárias, heroísmo em prol da busca de reconhecimento social ou mudanças revolucionárias e outros méritos neste mundo competitivo e insaciável, no qual muitas vezes até a própria expressão do corpo também sofre apropriação, padronização, é enlatada e vendida como produto, mascarando abuso e exploração.

O corpo grita

O modo como você entra e sai nos lugares físicos e contata o corpo do outro, costuma ser o principal indício dos tratamentos que imprime também ao próprio corpo! Eureka! Há lugares que requerem rituais espirituais e vastos protocolos de segurança para a sua entrada, não é à toa! Presenciamos hoje uma banalização total ou extremos de exigências pragmáticas e superficiais baseadas nas relações de compra e venda. Há clientes que exigem o serviço prestado conforme suas expectativas ou exigem o fechamento da espelunca... Tratam os lugares físicos e funcionários como prostitutas que estão ali para servi-lhes e, não raro, se inspiram no tratamento que aprenderam a dedicar ao próprio corpo, à terra onde pisam e aos que tem o desprazer de trocar relações... Mas quem nunca? Nossa cura passa pelo reconhecimento humilde e está mais próxima do que imaginamos. Quem vivencia uma relação de abuso de si mesmo, assim agora, tem nas mãos, os parâmetros de conhecimento de causa preciosos para empreender o processo de cura de suas relações. Talvez o melhor alarme indicativo da paciência e cuidado que temos conosco seja mesmo o modo como nos relacionamos com os outros e com os lugares por onde passamos, vice-versa. Por isso que talvez a famigerada “gratidão” quando preenchida do sentimento que transborda o coração pode mudar mesmo a nossa vida, pois mexe com a forma de nos relacionar e ressignificar mesmo aquilo que nos desagradou e machucou. Observe se as formas de nos relacionar não estão atreladas e constroem padrões que se repetem ao longo do tempo! Seja na relação com o outro, com o próprio corpo ou com o lugar no qual vivemos ou passamos. Por favor, não acredite no que eu estou afirmando, experimente, complemente você mesmo...

As dores são os últimos estágios dessas “mulheres” sacrificadas que habitam em nossas fibras musculares, sua abnegação genuína por amor a nós merece nossa atenção sincera, às vezes sua espera por nosso amor e aceitação já se tornou raiva e explode como larvas de vulcão, o que muitas vezes nos leva a pensar que nosso corpo é nosso inimigo: não é verdade! A religião, infelizmente, também funciona muitas vezes como uma espada de dois gumes nos afastando ainda mais daquilo que prometia nos ligar ao nos induzir a amaldiçoar o próprio corpo: a criação divina mais próxima que temos de nós. Condenando e estigmatizando o corpo, manipulando as escrituras sagradas e os vulneráveis fiéis, acusando o corpo de morada do pecado, também não é o corpo obra da criação divina e obra de destaque na nossa exuberante natureza física, portanto espelho do seu amor? Não é por meio do corpo que concretizamos boas obras e alimentamos nosso espírito também com sensações puras e sublimes? Se o corpo é o primeiro degrau da escada para acessar o espírito, não faz também parte do valioso acesso e do caminho?

Como recuperar o diálogo com o próprio corpo?

É um processo contínuo! A massagem, muitas formas de esportes e expressões artísticas como o teatro e a dança, quando exercidas com consciência, zelo e amorosidade, podem ser um excelente início da reconciliação e saúde desta relação com o próprio corpo! Porém, investir no autoconhecimento e meditação são os principais! Muitas vezes separamos corpo, emoção, mente e alma, com o fim de estudar suas particularidades e nos esquecemos que tudo se trata de uma coisa só ou um conjunto intrínseco. Por exemplo, para facilitar a compreensão, muitas vezes estudamos separadamente o esqueleto, sistema sanguíneo e musculatura, etc., mas não são todos entrelaçados e interdependentes! A emoção interfere no corpo, saúde física e na expressividade, as sensações que o corpo registra interferem nas emoções, lembranças e padrões de comportamento, tudo se retroalimenta... Cuidado ao perceber se o acúmulo de atividades, não está novamente incorrendo em competitividade, cultura de culpa e novos abusos em busca do cumprimento obcecado de metas e status.

Ao ouvir, acariciar e cuidar do próprio corpo, provavelmente você perceberá uma nova consciência e fluidez também na hora de praticar o sexo e conhecer mais intimamente sua(eu) parceira(o), perceberá que o prazer de descobrir, honrar e dar prazer imensurável ao outro é exatamente o mesmo que fazer tudo isso consigo mesmo e vice-versa!

Quando alguém te tratar mal no dia-a-dia, experimente perceber se este comportamento certamente não revela justamente o referencial interno massacrante que o algoz impõe a si mesmo primeiro, não como desculpa para justificar seus abusos e perpetuar ciclos funestos é claro, mas para que você mesmo não incorra na reprodução indireta do abuso a si mesmo ou aos outros, o autoboicote de “tornar-se aquilo que te feriu” soa contraditório eu sei, porém é mais comum do que parece, geralmente tem início quando você se submete por muito tempo ao ódio e aos desejos de vingança – são sentimentos humanos normais, mas não precisam ser alimentados, experimente deixá-los passar sem se identificar e perceba que você não é o ódio, a raiva... Experimente tomar suas decisões conscientemente e a partir do seu verdadeiro centro, não quando estiver cego pelas emoções violentas, mas se fizer assim, também não se culpe, observe as consequências e principalmente os efeitos sobre o seu corpo. Que nossas relações micro e macro sejam um prazeroso e sagrado matrimônio de cura para todas as relações e a transmutação do abuso!

PS: A fotografia que ilustra o Post é da performance Rupturas, não trata deste assunto diretamente, mas sim do impulso humano de transcender versus o vício pela zona de conforto que se auto impõe, ainda que esta seja brutal.

"...Ou mudamos o nosso modelo de ser humano ou não haverá mais ser humano. Ou mudamos a nossa relação com a vida ou não haverá mais vida."

Recorte da fala de Viviane Mosé, filósofa, 2012, Evento Casa TPM, discorrendo sobre Mulher e Educação. Vídeo Disponível no Youtube.

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#Corpo #Abuso #SaúdeAmor #Autoamor

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