Nosso mundo é fértil às uniões que ousem conservar as singularidades? A militância une ou segmenta?


Estação da Sé

Como viver só em bando? Como viver só? Como viver? “Como” subtende a busca de algum tipo de método ou instrução. É possível unir-se aos outros e ainda assim preservar nossos mundos distintos, nossa integridade? São perguntas que, a meu ver, precedem a arte e os grupos de teatro, dança e outros, pois lidamos o tempo todo com estas alianças temporárias ou mais longas que tendem a se transformarem e nos transformarem diariamente. Cada rompimento é normal, mas nem sempre é suave e fértil para um recomeço. Minorias se organizam e lutam com causas fortes e urgentes que merecem atenção, respeito e ouvidos atentos, mas ao mesmo tempo brotam medos, intolerâncias, ameaças e outras disputas que nos apresentam novos colapsos e novos muros e repulsas. A praça das artes no centro de São Paulo foi cenário de três encontros em dias diferentes, com pesquisadores de áreas distintas (arte, filosofia e antropologia). Encontros gratuitos abertos ao público proporcionados pelo grupo Vão de Dança Contemporânea (06 e 20/02/17, 06/03/17), fruto de um projeto subsidiado pelo Programa de Fomento à Dança. As três palestras tinham um tema central: Como viver só em bando? O intuito era fomentar o debate sobre autogestão e modos coletivos de vida na atualidade. Obviamente a consideração desta pergunta e a aparente polarização das duas condições (só x bando) também me despertam uma reflexão violenta em torno dos processos e grupos pelos quais eu passei e passo atualmente. Ao invés de buscar respostas definitivas às perguntas que dão título a este texto, eu prefiro deixá-las no ar, antes de trazer a tona o que eu pude guardar destes encontros preciosos. As falas destes pesquisadores ousam nos convidar a mergulhar e “surfar” em um universo vasto de provocações e considerações que desafiam a compreensões-clichês das relações contemporâneas, às quais estamos “condicionados” e, às vezes, respondemos automaticamente como modo de resistência artística e como indivíduos que buscam, diariamente, conciliar a vocação de viver/fomentar arte e cultura, movimentos coletivos intrínsecos deste fazer, versus o posicionamento guerrilheiro em prol da sobrevivência - o pagar as próprias contas e o “despontar” - que o voraz mundo de competitividade desregrada nos cobra a cada segundo (pois tempo é dinheiro! E a máquina capitalista atropela tudo, terras, índios, artistas, minorias, casas antigas, viciados, sentimentos, arte, histórias, dignidades e por aí vai...).

Manifestação dos Artistas Descongela a Cultura Já em São Paulo

Tenho que fazer um esforço para não começar a listar aqui os pontos que, a meu ver, tornaram utópica a desejada realidade de viver em grupo e ainda assim conservar as singularidades, pois os próprios objetivos de se montar um grupo que tenha como meta a arte, por exemplo, já estão, desde o início, inevitavelmente atrelados às concessões e, muitas vezes, poluídos, ops! Incrustados de metas e “apegos” que o possibilitem sustentar um "identidade", entrar em algum tipo de competição, seja em prol de um edital, de uma pauta, de algum prestígio ou de simplesmente resistir e militar para continuar a existir... O cenário moderno também nos mostra que “não despontar”, significa ficar para trás, na mesmice, numa singularidade anônima e insignificante para um mundo sedento de fama e status. Sedento não só de ter e ostentar isso, mas que também cobra aos filhos e irmãos a fim de validarem também suas existências, cobrança em voz alta ou dissimulada. A competição pode até ser útil para unificação de um time, mas geralmente resulta também na anulação de qualquer empatia ao outro lado ou sob uma boa dose de seletividade, caso contrário, esta ponte poderia ser rapidamente interpretada como perigosa fraqueza. Sempre competir e alcançar “mais com menos”, “concorrência”, me parecem mais conceitos de marketing do que de arte... Eu não consigo ver nenhum valor na arte se ela não mexer com empatia e consciência e isso tudo me parece um grande conflito atual!

Mas tentarei rever aqui alguns pontos que consegui apreender destas palestras preciosas, férteis à reflexão e à abertura de consciência e vamos ver o que acontece...

O ator Renato Ferracini e o desafio de repensar o conceito de corpo e identidade para então experimentarmos afetamentos e potência.

Enquanto o Renato Ferracini nos conduzia em uma fala embasada nos conceitos do filósofo Espinoza acerca de um novo entendimento do “corpo”, “encontro triste” e “encontro alegre”, passava um filme na minha mente, cenas da sua atuação nas peças Café com Queijo e no seu mais recente trabalho solo chamado “Dissolva-se-me”. Neste último, eu me deliciava ao notar como ele brincava em cena, desde o momento da fila para a entrada, borrando as linhas que aparentemente diferenciam o ator e o personagem, o ator e o público, uma pessoa de outra... Me recordo das reações do público que muitas vezes pareciam não notarem as sutilezas e as questões implícitas ali, dignas de outros estudos. Lembro-me de uma discussão com um amigo meu que me fez concordar com ele que este tipo de trabalho (não linear, abstrato...) não é “popular” e muito menos “vendável”, logo, uma linha pouco indicada para um grupo como o nosso que estava começando e precisava se consolidar, precisava de público...

Nesta palestra do Renato, o conceito de identidade vinculada à função do sujeito é posto em cheque e uma nova compreensão desafia nosso raciocínio. “Pensar é um ato de violência”, pois causa terremotos e deslocamentos e é também um ato de invenção e criação. “Cada um de nós é um conjunto de partes cuja relação entre elas nos define. Assim como cada uma das partes ou órgãos do corpo...” e não as nossas funções sociais, profissão, origem e etc.

Neste conceito, a potência do corpo é definida basicamente pelas capacidades de relações. Qual é a qualidade das suas relações? (capacidade de afetar e ser afetado). Cada um tem um grau de potência e este só pode ser descoberto num ato de experiência, mesmo assim, este grau de potência é temporário.

“Encontro Triste”: É quando somente uma das partes aumenta seu potencial em detrimento das outras (por exemplo: estupro). Quando o Renato emite esta palavra, é como se um mapa se desdobrasse a minha frente, no meu modo de ver, toda a nossa sociedade é baseada numa “política” de estupro, da Terra, de nossos dons e habilidades, do nosso trabalho e, neste insight, produzi um conjunto de objetos artísticos chamado de Kit AntiEstupro no ano passado (risos), com a intenção de materializar posturas sociais de autoafirmação e defensiva de pessoas que, no fundo, tem um imenso pavor de sofrerem um estupro e, por isso, como numa tática de guerra, temem as relações horizontais, porosas e mutuamente penetráveis e buscam submeter os outros a um regime de poder baseado no uso objetificado do outro, descartabilidade, e, muitas vezes, humilhação e enfraquecimento do outro, sem perceberem que nesta cadeia, também acabarão sempre nas mãos de um algoz. Esta é uma postura, da qual podemos achar vestígios em todos os tipos de relações sociais, afetivas, profissionais...

“O estupro é um programa político preciso: esqueleto de um [sistema] opressor, é a representação crua e direta do exercício do poder. Designa um dominador e organiza as leis do jogo para que possa exercer seu poder sem restrições. Roubar, arrancar, extorquir, impor, se assegurar de que sua vontade se exerça sem entraves e de que possa gozar de sua brutalidade sem que a outra parte manifeste resistência. O gozo da anulação do outro e da sua palavra, da sua vontade, da sua integridade. O estupro é a guerra civil, a organização através da qual o sexo declara ao outro: tenho todos os direitos sobre você e te forço a se sentir inferior, culpada e degradada.” Virginie Despentes, Teoria King Kong” Mais uma citação do Programa da adaptação Blanche de Antunes Filho,

Vista da Estação Capão Redondo do Metrô, Linha Lilás, Sabin

Voltando à palestra, “Encontro Alegre” é a situação na qual todas as partes ampliam sua potência a partir da relação.

  • A “passividade” é uma condição caracterizada por uma espécie de prontidão inconsciente aos encontros aleatórios. Na qual o sujeito fica a mercê de qualquer encontro que pode ser alegre ou triste, sem escolher ou interagir conscientemente.

  • “Artes presenciais subtendem coletividade no processo ou no espetáculo, deslocamento e inventividade afetiva, postura política e postura estética.”

  • Invento outras formas de afetividade para ampliar minha potência no mundo? (Relações)

  • Invento novas relações ou simplesmente as reproduzo?

O medo organiza a passividade e a objetificação do outro. Ao passo que singularidade e coletividade estão sempre em movimento, demandam tempo e trabalho árduo. Nada garante a continuidade de um coletivo, o próprio ato essencial de se reinventar pode significar desfazer a relação atual e iniciar outras. Buscar o comum significaria nivelar as singularidades, ao passo que mantê-las requer a criação constante do novo “comum”. Este processo requer uma passagem pela pergunta: “Eu ainda quero reinventar esta relação com esta (s) pessoa (s)?”

O filósofo Peter Pál Pelbart e o conceito de coletivo que “preserva as distâncias, o jogo das distâncias e proximidades, as diferenças”.

Coincidentemente ou não, a fala do filósofo Peter Pál Pelbart também resgatou os conceitos de Espinoza, além do ator, agora é outro filósofo quem ressalta que as “paixões tristes” são úteis para o exercício do poder, pois inspiram tremor e impotência aos seus súditos. A “tristeza” (é o nome do conceito filosófico) significa diminuição de uma potência. Nós não conhecemos previamente as nossas potências e afetamentos, pois estas relações são incessantes e não temos uma cartilha que nos dê seus gráficos de antemão. Cada composição de partes tem uma potência singular de afetamentos e organização, não é uma mera soma das partes!

Como é que nos envolvemos com o outro? Como envolvemos o outro em nosso mundo e ainda prezamos por sua integridade? O que preservamos de nós mesmos quando somos envolvidos? Vários mundos coexistem ou eles se fundem em um só como um corpo múltiplo?

Agora resgato uma consideração do Peter que também me fez visualizar o universo com seus planetas em órbita, cada um com sua singularidade de dança ou órbita distinta que produzem a harmonia do nosso sistema solar:

“Um indivíduo é uma certa relação de velocidade e lentidão. O sangue flui numa velocidade e outras substâncias em outras, esta relação nos faz velocidades e lentidões múltiplas que se compõem e se afetam.”

Algumas características notáveis em um plano de composição (grupo, projeto, pensamento...):

Que haja o mínimo de consistência ou se decomporá. Esta consistência envolve um agenciamento, ou uma multiplicidade que deve ter unidade singular.

As multiplicidades se recusam a serem dominadas. Assim como tribos que recusam a figura de um governante, seu chefe não tem poder. O acúmulo de poder é evitado a fim de manter a horizontalidade.

“Multidão” é a modalidade que esconjura o comando humanitário e preserva a multiplicidade. São heterogêneos não submetidos a um único comando, mas não são um mero agregado, são, ao mesmo tempo, comum e singular. São singularidades que se envolvem mutuamente, mas não se fundem, preservando a heterogeneidade, a pluralidade. O contrário deste conceito seria a massa, o fascismo...

Agora vai parecer que estamos falando de química: “Como preservar a multiplicidade na composição sem perder a sua consistência?” Como ser envolvido por outro mundo sem perder o próprio mundo? Ser afetado, atravessado, mas não fusionado, não homogeneizado. Um conceito de coletivo que preserve as distâncias, o jogo das distâncias e proximidades. A fusão não é o conceito desejável, pois este abole as distâncias. Também não buscamos segmentação das classes, mas o jogo das diferenças.

“A solidão do artista é a mais habitada do mundo. Povoada por afetações e encontros múltiplos.”