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Medicina da Floresta - Encontro com povos nativos

A cada singelo contato que eu tenho com povos nativos eu reconheço novos lugares em meu próprio Ser, na minha alma, corpo, na divindade que nos habita! É como chegar em uma nova floresta cheia de vida e de ensinamentos profundos, não-lineares, não-acadêmicos… Que só podem ser sentidos e percebidos, integrados com a mente quieta, mas jamais serão esquecidos… Eu nunca retorno igual de um encontro com povos nativos! Não estou focado em buscar esses encontros com esforço, ao contrário, parece que eles é que vem até mim, como na quarta-feira, 7 de agosto, com a Mestra Shipibo Lourdes Mahua do Peru, em sua 1° vez no Brasil no espaço Shiva Nawa Ashram. Em plena horário de pico, juntamente com uma amiga, eu atravessei a cidade da zona sul até a zona norte, pois senti no meu coração que era para eu estar lá, assim de última hora, no mesmo dia, senti que este convite era para mim! Ainda assim, eu não me apresso em tomar decisões, foi meio caótico chegar até o local, bem no estilo de Sampa, vou sempre sem expectativas, aberto, mas atento, vou dando o meu tempo de chegar e de perceber o que é apenas quando eu estou lá… 


Ao entrar onde a mestra estava, minha mente não viu "nada demais", uma senhora simpática, muito simples, rodeada com seus artesanatos e bordados feitos à mão. Me sentei no lugar mais distante da roda, queria meu tempo de me acalmar da loucura da cidade, do Uber que não chegava… E fui chegando devagar àquele lugar e àquelas pessoas… Me chamou a atenção fortemente um de seus bordados que parecia falar comigo de longe! Um beija-flor! É isso mesmo, produção?

 

Faltavam alguns minutos para iniciar o evento: apresentação (ela conta a história de sua família e sua história) e o canto de ícaros (cantos sagrados), não são mantras ou hinos, ela os cria na hora, conforme vai sentindo… São quase  horas cantando sem parar! A sua respiração é magnética, as notas musicais são como escadas ou corrimões que nos convidam a uma mágica experiência sensorial. 

 

Bem, antes de tudo começar, acabei me aproximando do beija-flor, ou melhor, do bordado que cintilava de longe, então ela me comprimentou e a sua anfitriã traduziu suas explicações, um contexto da obra, as imagens, mandalas, desenhos, são visões que ela tem na força da medicina da floresta como ayahuasca e outras plantas de poder, para eles o beija-flor é um mensageiro divino, a flor em que ele bebe o néctar na arte é uma das plantas de medicina da floresta, e em volta também há uma grande flor-medicina expandida. 

 

Eu realmente me comovo ainda mais ao ouvir tudo aquilo e sinto que aquela obra de valor cultural, artístico, afetivo, etc. e etc. é um presente que me dou para mim mesmo por meio daquela “mãezinha” tão amorosa e do seu talento, o bordado é a sua oferta a este mundo material por meio de seus dons…

 

Em menos de 5 minutos que permaneci ouvindo seus cantos de olhos fechados, sem pressa e totalmente neutro, sem o uso de nenhuma substância, centrado em mim e no meu corpo, seu canto vai chegando até às camadas do meu SER e eu vou sendo convidado para uma “trilha na floresta sagrada” por meio de sua voz, imediatamente me reconheço em estado meditativo. Como eu sei? Um relaxamento profundo me toma, um estado de dilatação sensorial, consciência expandida, aquele olho que vê a própria mente, aquela consciência um degrau acima, um passo atrás, conexão natural com a minha respiração que agora flui em um padrão totalmente diferente da cidade, do metrô do Uber que não conseguia me achar, da preocupação com o tempo e com os compromissos… Eu estou em casa agora! E posso ouvir o meu próprio Ser e aprender tudo o que tenho para aprender aqui e agora, ou melhor, relembrar, me permitir um banho em próprio amor e no AMOR universal…

Eu faria um diário de bordo mais detalhado, mas deixo apenas este aqui nesta brecha entre o mundo virtual e o real, em que cada um se conecta ou desconecta, acrescento ao meu relato o que não me é nada estranho, que mesmo parado e imóvel ali, dancei numa roda de crianças alegres, indígenas no centro de uma tribo nativa, recebi um beija-flor na minha janela de casa no quadro da minha mente, quem é do teatro e da dança poderá entender um pouco mais o que vou dizer aqui a seguir, colhi desta imagem mental, um estímulo que pude experimentar pelo meu corpo, pela minhas células (ops! agora talvez só quem é das terapias quânticas poderá me entender melhor), dancei e enviei beijos e abraços às pessoas que eu amo, às pessoas mais longe ou mais perto que me encontram e, mesmo sem entender muito ou nada dizermos, nossas almas se sabem e se sentem, bem aqui, no centro do Coração! 

 

HAUX*! Salve os povos nativos! Agradeço e honro!

 

E sim, implícito neste relato, infelizmente está sim o genocídio que o atual desgoverno tem facilitado contra os nossos povos nativos no Brasil, mas sobre isso há informação disponível de fontes confiáveis que qualquer um pode muito facilmente pesquisar e decidir como se posiciona ou não neste assunto… Sobre minha humilde experiência com estes povos, só posso dizer que não há livros escritos por antropólogos acadêmicos brancos que os descrevam com fidelidade, não há peça ou artesanato preservados capazes de “falar” o que somente a energia da presença realmente transmite, muito menos meu relato transbordado de gratidão aqui… 

 

Agradeço a sua visita aqui! Deixe o seu e-mail e receba um lembrete dos próximos textos.

 

Haux: É uma palavra sagrada, não deve ser usada de forma corriqueira, ela é dita pelos txai (índio) ou colegas de txai, usada também para iniciar e fechar os seus rituais medicinais, tem como significado primário "que venha a cura".

 

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