© 2016 Roni Diniz . Ator, Fotógrafo e Designer Gráfico.

Introdução do Blog

Como eu lidei com a depressão

 

Há mais de 10 anos atrás, na saída da adolescência, eu fui diagnosticado com depressão e enfrentei uma saga! Hoje com um certo distanciamento desta fase desafiadora, fica até mais fácil expressar e atender esta minha intuição de falar mais sobre isso, não é a primeira vez, embora não tenha sido o título de nenhum dos meus textos até hoje, eu já falei sobre isso algumas vezes aqui, por mais que a depressão pareça algo terrível, eu sou grato à depressão! Ela está “por detrás” de grandes conquistas da minha vida, como mola propulsora, um impulso que me fez chegar até o Teatro e ao meu infinito mergulho no Autoconhecimento. Embora eu também reconheça que é uma dor indescritível e ardilosa, estou aqui para engrossar o coro e dizer que é totalmente possível se recuperar sim e que encontrei muitas ajudas, muitas vezes nos caminhos bem menos óbvios, não foi na Igreja e nem na família não, vou explicar o porquê…

 

Os sentimentos e as emoções configuram um universo muito complexo, sutil e não-linear que torna muito desafiadora a comunicação, muitas vezes nem nós mesmos conseguimos entender o que estamos sentido, de tão conflituoso e contraditório, então quando tentam nos encaixar em prateleiras e nos impõem soluções “práticas”, o “tiro pode facilmente sair pela culatra” e pode piorar o quadro sem precedentes! Cuidado, pode fazer a pessoa depressiva se sentir mais culpada e incompetente ainda do que o que ela já se sente por causa da doença!

Convém realmente buscarmos pessoas que vão nos ouvir sem julgamentos e que TENHAM REALMENTE RECURSOS PARA NOS AUXILIAR. Não basta apenas ser alguém que nos ama e tem uma boa capacidade de ouvir, pois assim pode acontecer apenas uma transferência temporária de carga e criar vínculos de dependência. Não quero desencorajar um belo desabafo que às vezes pode sim ser uma salvação, mas gostaria de encorajar passos mais efetivos em longo prazo. Hoje eu percebo que assim como qualquer doença, principalmente a depressão, pode ser um convite para olharmos para dentro de nós e sairmos do automático!

 

Hoje aos 33 anos, já enfrentei traumas que julgo bem mais pesados do que a situação que eu passava naquela época na qual desenvolvi a depressão, e mesmo assim não cai na depressão novamente, porém agora tenho um outro preparo e maturidade, não sou perfeito, mas hoje percebo que a primeira pessoa com a qual eu devo contar sempre, sou eu mesmo! Parece meio óbvio, mas tanto num quadro de depressão como em outros distúrbios ou crises existenciais, podemos perceber que somos nós mesmos o nosso principal inimigo e cruel algoz: uma voz interna dura, perfeccionista e persistente, porém, como o nosso foco está na dor fica difícil perceber o quanto a situação ruim pela qual estamos passando - e que desencadeou este quadro - pode estar sendo mil vezes intensificada e prolongada por esta voz interna cruel que nutrimos contra nós mesmos esta voz, é uma parte de nós, não é ninguém externo. É que provavelmente não aprendemos os recursos corretos e efetivos para lidarmos com ela e transmutarmos esta energia densa, sim é possível, um exercício que é diário e com o tempo pode ser cada vez mais leve.

 

Como eu descobri que era depressão?

 

Da pior maneira. Eu tive uma catarse na fila de ônibus no terminal, um treco mesmo, me tremi todo e perdi o controle do meu corpo até beirar a inconsciência. Fui parar no Pronto-Socorro, fui medicado e me recuperei rapidamente. Mas por trás deste fato, eu me sentia muito triste e não me achava digno de sentir sequer a tristeza, no fundo eu me obrigava a ser uma fortaleza e uma expressão ambulante da felicidade… Eu Interpretei assim o feedback que as pessoas me davam e isso se tornou um grande peso que veio à tona quando enfrentei uma transição difícil na vida. É lógico que na época eu não tinha a capacidade de perceber tudo isso como eu analiso tão facilmente agora, pois eu estava totalmente fora do meu eixo. Como alguns mais atentos me diziam: eu tinha perdido o brilho nos olhos. Percebo que é um equívoco muito comum de acontecer, cobrarem que você reaja, se lembre de quem você é, seja coerente, “tenha fé!”, etc. e etc. Mas a verdade é que existem mínimas possibilidades da pessoa depressiva agir coerentemente e não é uma questão de ela apenas “querer”, na depressão ficamos muito fora do nosso eixo e com a visão distorcida, o corpo também fica defasado produzindo mais hormônios que confirmam aquele estado físico recolhido e impotente e os ciclos de pensamentos negativos vão se retroalimentando com os maus sentimentos, com as reações externas das pessoas que nunca atingem nossas expectativas. Depois deste episódio na fila do ônibus, fui encaminhado para um neurologista para exames de eletroencefalograma, eu trabalhava registrado e tinha plano de saúde, foi fácil dar sequência nesta fase de diagnóstico, mas eu não fazia a menor ideia de que eu estava com depressão, eu não juntei os fatos da minha tristeza persistente, pensamentos negativos e quadro físico… Eu confirmei que sentir depressão realmente é totalmente diferente daquilo que a gente pensa que é quando lê sobre isso mesmo em fontes confiáveis, acredite, é uma dor muito pior porque é na alma!

 

Na época, eu precisei me mudar de casa e de bairro, eu estava saindo da religião que eu frequentei durante todos os anos desde a infância e junto com isso, perdendo todos os meus melhores amigos, mesmo que eu voltasse, sabia que nunca mais seria igual, eu era cheio de crenças limitantes sobre sobre Deus, sobre amizades e todas elas me faziam me sentir um lixo humano e indigno. Todas as memórias boas eram como socos no meu estômago, confirmavam sentimentos de perda e abandono, acentuavam ainda mais a minha sensação de incompetência e culpa, mas eu tinha um magnetismo suicida de apego a estas memórias e não largava delas, repassando filmes mentais e sofrendo repetidamente com eles. Por outro lado, a maior parte da minha família era cheia de outros problemas sérios e desafios diários que eu sempre julgava mais graves do que os meus problemas e inclusive me sentia na obrigação de ajudá-los ao invés de levar mais B.O.s, para completar, a maior parte deles era de outra religião mais fanática do que a minha e julgavam qualquer mal estar como possessão demoníaca! Para mim, que tinha um certo conhecimento bíblico o suficiente para perceber intenções manipuladoras e emburrecedoras de rebanhos por detrás de usos convenientes da palavra em detrimento do descarte de outros, percebia os comentários visivelmente baseado em audaciosos implantes de medo... Eu sentia que Deus era Amor e se fosse para eu servir a Deus assim motivado por medo do inferno e pensamento focado em Satanás 24h e no que ele está tramando contra mim: tô fora!

 

O fato é que eu NUNCA me senti distante de Deus! Nem nos piores momentos de depressão, eu nunca culpei a Deus, obtive alívio muitas vezes por meio da oração sim, mas eu jamais jogaria sobre as mãos de Deus o que eu reconhecia como sendo responsabilidade minha de resolver por mais fraco que eu me sentisse, talvez uma sídrome de heroísmo também me acometia eu reconheço, eu sabia e me lembrava sempre quando caía numa tentação vitimista de me anestesiar “enviando as contas para Deus” pagar… Eu me perguntava e também perguntava a Ele o que “eu” precisava fazer, quais eram as “ações” para eu sair deste fundo do poço…“A fé sem obras é morta” eu sentia que eu precisava agir, então decidi procurar todas as ajudas que não fossem de encontro aos meus princípios, principalmente os bíblicos que eu ainda sustentava religiosamente, me comprometi a seguir a risca os tratamentos contra a depressão.

 

Até hoje eu nunca conversei detalhadamente e abertamente com ninguém da minha família sobre isso e não me arrependo de ter me poupado de ouvir os mesmos textos decorados, as cobranças ou dó e desesperos invasivos… Mas eu sei que eu também já fiz isso, e como fiz! (Inclusive se você que lê este texto for meu parente ou amigo, por favor, também não faça isso...) Eu amo a minha família, sei que nenhuma família é perfeita, sou grato e os respeito cada vez mais por serem exatamente como são e também amadurecerem no seu tempo e justamente, para mim, isso também inclui não esperar deles o que eles visivelmente - às vezes - não tem nem para si mesmos, quanto mais para mim… Para mim é importante me lembrar sempre que "amor" NÃO significa pegar para si contratos negativos em fidelidade à família e perpetuar ciclos destrutivos. Eu os aceito como eles são e podem ser, mas também compreendo a minha necessidade, hoje mais livre de culpas, e vou aonde eu preciso ir para receber o que preciso ou até eu descobrir e conseguir mudar isso… Sim, de fato, todos nós os “Diniz”, temos uma baita teimosia/orgulho em comum, típica de quem teve que sobreviver e resolver coisas muito antes do tempo, na outra ponta está uma espécie de abnegação cega e invasiva. O melhor é que, a partir do momento que eu reconheço isso, também posso lidar e manejar estas características herdadas em mim também… Me desapegar delas, por que não? Opa! Também percebo que cristalizo elas em mim quando me recuso a olhar para elas, perceber suas origens e iluminar com a luz da consciência.

 

Eletroencefalograma

 

Passados os exames de eletroencefalograma, eu fui encaminhado para um psiquiatra, não contei para ninguém, de novo eu já sabia exatamente as baboseiras que sempre ouviram e me repetiriam como papagaios, risos, quem nunca? Então, fui descobrir por mim mesmo, ainda com medos e receios, mas é claro, eu é quem iria escolher se acataria ou não o que o médico me dissesse, se faria sentido para mim, se precisaria buscar outro médico ou outras opções de tratamento… Meu exame não deu nenhuma espécie de anormalidade cerebral, o diagnóstico era depressão, fui medicado com Fluoxetina manipulada e encaminhado a fazer Psicoterapia urgentemente, neste meio tempo eu já havia tido uma outra "catarse" parecida com a primeira, só que em casa, nesta altura eu morava com dois dos meus irmãos e um deles tinha acabado de se casar. Foi uma decisão muito difícil ir morar com eles, apesar de eu gostar bastante deles eu era muito mais orgulhoso do que hoje, todos nós somos um anto geniosos, hoje eu percebo que este orgulho foi um escudo que eu criei para me proteger de muitas coisas familiares que eu não engolia e percebia desde cedo, era difícil abrir mão dos meus planos e de novo estar na casa dos outros, justamente pois esta tinha sido minha dura realidade a vida toda, já que não tive meus pais, mas eu me senti sem opções, vulnerável que estava, minha independência foi embora, a minha ideia era que tudo isso era temporário… E me restava ser muito grato por ter uma casa que me acolheu, onde eu vivi longos e lindos anos também. Precisei ter muita paciência... 

 

Por que o Psiquiatra me inspirou confiança?

 

Quando eu finalmente disse para alguns poucos da minha família e até para alguns amigos que passei no Psiquiatra, eu ouvi todos os tipos de baboseiras que se possa imaginar. Que eu ia me viciar em remédios e ficar muito pior, que isso tudo era problema espiritual e um demônio, que eles me tirariam dos caminhos de Deus… Tá bem, eu sei que há mesmo casos de pessoas que se viciam em remédios, mas que lógica há em recusar um tratamento disponível e comprovado em prol de boatos ou de relatos de casos nos quais as orientações obviamente não foram seguidas corretamente? A minha antiga religião, por mais dogmática que fosse em alguns aspectos, nunca desincentivou algum doente de procurar tratamento médico, pelo contrário, ensinavam “um profundo respeito pelos médicos que desempenham um papel importante inclusive para a vontade divina, afinal um dos escritores bíblicos contemporâneos dos apóstolos era médico, Lucas escritor do seu livro homônimo e do livro de Atos" (Colossenses 4:14). Então, este tipo de conselho fanático apenas me entristecia mais e me afastava destas pessoas ou me fazia perceber que eu não poderia contar com elas neste assunto… Eu respeito e acredito em milagres e em curas por meio da fé, hoje mais do que nunca, mas também reconheço a sabedoria de Deus em coisas que muitas vezes enxergamos como ruins e desconfio de qualquer tipo de imposição e barganhas na fé que funcionam como uma espécie de cativeiro espiritual no qual a pessoa escolhe ficar em troca do milagre e quem cobra este preço, nunca é Deus, mas sim algumas instituições de uma forma bem sutil e conveniente para eles.

 

O psiquiatra era um senhorzinho respeitável e simpático de uns 60 anos, brincou com o meu nome e perguntou se minha mãe era fã do Ronnie Von, como todo mundo sempre faz até hoje… Me olhou bem nos olhos e perguntou como estava minha vida, eu me senti à vontade para dizer apenas que eu estava com algumas dificuldades, mas eram apenas fases difíceis e engoli um nó na garganta… Ele me disse algo mais ou menos assim, que todo aquele problema físico era de origem emocional e que eu precisava me cuidar urgentemente, pois o meu corpo já estava dando sinais como um pedido de socorro. Me explicou direitinho que aquele remédio receitado não era para eu ficar tomando a vida toda, mas apenas por enquanto para auxiliar o meu corpo com aquele desequilíbrio químico e ciclo que já estava instaurado. Me explicou que a psicoterapia era o que seria mais determinante no meu tratamento para que aos pouco eu fosse diminuindo a dose do remédio até parar de vez! É claro que eu imediatamente perguntei se o remédio tinha efeitos colaterais e se eu corria o risco de ficar viciado. Ele foi contundente e me disse que sim, caso eu não seguisse as orientações do tratamento e não fosse diminuindo a dose ao passo que a psicoterapia fosse fazendo efeito, risos, também me recomendou terapias alternativas, hobbies e atividades físicas, me explicando que auxiliaram naturalmente para o meu reequilíbrio hormonal/físico. Era muito importante eu fazer coisas que eu gosto para que o meu corpo liberasse naturalmente os hormônios bons que estavam em falta por causa da depressão. Eu sou imensamente grato por aquele médico ter cruzado o meu caminho e o considero sim como uma generosa provisão divina!

 

Mas Terapia funciona mesmo?

 

Eu não tinha orçamento para pagar um psicólogo, meu plano de saúde não cobria nada disso. O psiquiatra também me orientou a buscar universidades que disponibilizam terapias gratuitamente e até me deu alguns nomes, me recomendou fazer a terapia individual se possível e semanalmente, mas se eu não conseguisse que começasse com que fosse mais viável urgentemente. Como eu disse, sempre acreditei em Deus e sempre senti a sua presença, nunca o culpei, de alguma forma eu tinha uma intuição de que Deus estava me apoiando sim, embora não condissesse com as minhas expectativas e muito menos com a das outras pessoas que muitas vezes julgam as pessoas que passam por dificuldades como “pecadores”!

Então, eu decidi fazer a parte que me cabia, decidi experimentar a psicoterapia e ver o que acontecia, ué! Fui até a faculdade mais próxima da minha casa, a UNISA, me inscrevi, mas só tinha sessões em grupo, confesso, me soou muito estranho primeiramente fazer terapia em grupo. Mas ao mesmo tempo, foi positivamente chocante perceber que eu não era o único que tinhas aqueles problemas, no meu grupo com duas psicólogas, havia uma senhora com menos de 40 anos que aparentava ser evangélica, um senhor de idade aproximada a dela e uma moça jovem como eu! Mas as psicólogas pareciam um tanto frias ou metódicas demais. Enquanto eu ia nestas consultas, continuei procurando um psicólogo que eu pudesse pagar e ser atendido individualmente, semanalmente. Na terapia em grupo, nunca ninguém era intimidado a falar, as perguntas eram sempre bem indiretas, para mim pareciam não fazer muito sentido na época, o clima começava sempre meio frio e depois a gente ia se soltando um pouco mais. Quando eu falava, sorridente e comunicativo, as pessoas pareciam meio chocadas! Neste dia perguntaram para a gente quais eram nossos hobbies e eu disse que desenhava e escrevia poemas, falei sobre a mania que eu tinha de desenhar olhos… Na minha última ida lá, a menina mais jovem me deu este desenho e frase que eu guardo até hoje! Não me lembro do seu nome, talvez Sandra, mas me lembro nitidamente do seu rosto e olhar como se estivesse vendo agora.

 

Pela primeira vez que eu fui a uma psicóloga individual, vamos dizer assim que a química não bateu! Eu não me sentia a vontade lá, fiquei desolado porque já tinha saído da UNISA, então apareceu uma outra possibilidade e eu fui conhecer outra psicóloga, a Rosimaria. Ela não era tão jovem quanto a outra, seu consultório era cheio de brinquedos e tinha um ar aconchegante. Ela me explicou que era especialista em crianças, mas que estava interessada no meu caso, me cobrava um valor bem simbólico. E lá, dei início a uma longa e profunda jornada para dentro de mim! Eu me lembro que no fim de algumas consultas ela me perguntava se eu estava me sentindo bem, eu geralmente dizia algo mais ou menos assim que estava bem sim, mas cheio de minhoquinhas pensantes inquietas na cabeça… O fato, diferente do que o senso comum desenha, os psicólogos não dão “conselhos”, JAMAIS dizem ou insinuam o que devemos ou não fazer, eles entendem e detectam mecanismos subjetivos que estão imperando em nosso subconsciente e nos provocam a sair da zona de conforto que nos mantém presos nos mesmos vícios comportamentais, nos provocam a descobrir nossos próprios recursos internos e usá-los, nos provocam a expandir a consciência e a desenvolvermos mais autonomia e autorresponsabilidade e sim, isso às vezes dói um pouquinho e assusta também, mas germina que é uma beleza. No fim, tudo depende de nós, assim como nenhum tratamento funciona se não tomarmos os medicamentos na hora certa, de nada adianta a terapia se não nos dedicamos.

 

Nem que eu quisesse eu poderia dizer o tamanho do movimento que ela me ajudou a perceber que eu era capaz de fazer por mim mesmo… Ela tinha uma paciência inquebrantável comigo. Numa época que eu estava chegando muito atrasado e me sentia envergonhado me culpando por isso, ela me explicou que era um espécie de autoboicote inconsciente e que era normal acontecer naquela etapa, para eu vir mesmo atrasado!

 

Busquei os hobbies, assim como o Psiquiatra tinha orientado, fui fazer natação e me falaram do CEU Casa Blanca perto da minha casa na época, lá eu descobri o Teatro e também a Dança Contemporânea, linguagens artísticas poderosas que me levaram contundentemente ao contato e acolhimento direto com a minha emoção e meus sentimentos, não somente aos meus, mas dos outros também, um “lugar” que enfim me aceitava como eu era e celebrava de fato, também as minhas outras expressões artísticas, pois ali, eu estava em contato diretos com muitas pessoas que sabiam exatamente o que era isso, ou melhor, elas se permitiam sentir!

 

Quem diria, aquele menino que um dia se chafurdava num drama profundo em declive a ponto de tentar cortar o próprio pulso, agora estava encantado com novos universos que se apresentavam! A vida é mesmo assim: mágica! Mas é claro que a mudança não foi do dia para a noite. Eu tive várias recaídas sim, fiz algumas burradas no caminho. Demorei alguns anos para sanar o meu conflito interno com a religião e perdoar, aceitar, integrar… Talvez eu ainda esteja fazendo isso, inclusive agora enquanto escrevo este texto. uau! Mas principalmente me perdoar, me aceitar, me descobrir! Minha identidade estava totalmente misturada e confundida com a religião, os preceitos e moralismos e com as escolhas da minha família e de outras pessoas, com as relações que eu tive no passado, eu usava estas relações como comparativos para invalidar qualquer avanço atual que eu fazia. Sinceramente,  confesso que no início, eu não percebia nada os efeitos que a terapia estava fazendo em mim, mas ainda assim persistia, sabia que tinha que ter paciência e também não tinha mais nada a perder. Fui mudando tudo, a aparência, os personagens que eu mostrava ao mundo e achava que era minha verdade até então. Um pouco antes de completar um ano de tratamento eu já me sentia bem e larguei de vez a medicação. Logo mais, eu decidi viajar até Pernambuco, minha terra natal, na última vez na qual estive lá, eu tinha apenas 12 anos, foi uma viagem inesquecível que fiz com o meu irmão de idade mais aproximada, também comecei a me inscrever para ganhar uma bolsa para universidade pelo Enem, e de repente, venci, foi na 3ª tentativa! Foi assim que me formei bacharel em Comunicação Social numa época em que era bem mais difícil do que hoje fazer faculdade. Me consultei com esta psicóloga durante quatro anos com alguns períodos curtos de intervalos sem consultas e fui em mesmo quem percebeu que era a hora de "andar com minhas próprias pernas" de vez e me sai muito bem. Este texto também é uma singela homenagem aos psicólogos e outros terapeutas, pelo bem que prestam ao ser humano e à sociedade, mas especialmente à Rosimaria com quem eu não tenho mais contato, mas tive o prazer de presenteá-la com um dos meus desenhos aquarelados de flores na minha última consulta!

 

A Sensação da Depressão

 

Cada pessoa como ser único, realmente pode sentir o mesmo desequilíbrio físico e hormonal desencadeado pela depressão de formas diferentes, o máximo que eu posso fazer é compartilhar como foi o meu caso que obviamente é apenas um caso, podendo se parecer ou não com outras situações, o mais importante de se frisar é que o ideal é que seja um médico realmente habilitado que dê o diagnóstico. Eu fui me fechando em meu mundo, as pessoas com as quais eu desabafava pareciam mesmo inconformadas e me cobravam, como “eu que já tinha enfrentado coisas tão difíceis como a perda dos meus pais e era sempre alguém tão alegre, talentoso e maduro entrou e não conseguiria sair dessa?!”. Então, sem perceber, eu criei este personagem feliz e prestativo, acionava ele automaticamente para cumprir todas as minhas tarefas e lidar com todas as pessoas com as quais eu precisava lidar, inclusive com a família. Eu sou mesmo um Ser feliz e prestativo, é bem sutil perceber quando se entra no personagem, mas vale a pena se conhecer até este ponto! Quando eu tentei cortar o meu pulso, achei que seria rápido e em segundos eu sangraria e morreria de uma vez, mas não foi assim, raspava e raspava o meu braço com um caco de vidro e muito pouco acontecia. Então, arrependido, me sentindo um ingrato pela vida, eu não era capaz de admitir ou reconhecer que isto tudo que acontecia comigo, por mais feio que fosse, também era parte da vida, fui até o posto para fazer um curativo, com muita boa vontade a enfermeira me questionou se eu tinha tentado me cortar e lá eu ouvi mais um sermão docilmente afiado. A gente se cansa sabe?! Ou melhor desfalece, por que na depressão já se acorda cansado. Só contei isso para duas pessoas que realmente me apoiaram e me deram algo que fez a diferença: companhia e presença. Na “igreja”, também contei, o que senti deles por mim foi sensação de dó e choque, pelo menos a maioria, um clima de enterro, ouvi promessas de que iriam orar por mim, mas nenhuma ação objetiva foi tomada, depois houve alguns comportamentos que demonstravam uma postura acusadora como se eu tivesse feito isso premeditadamente para chamar atenção. Até hoje não sei se me transmitiram mesmo isso ou se foi mais uma dramatização intensificada pela depressão. Então, finalmente comecei a suspeitar que Deus não tinha nada a ver com religião, pois no meu íntimo eu sabia e sentia que Deus sempre soube e-xa-ta-men-te o que eu realmente sentia antes de eu falar! Como então seus “representantes” não sabiam?! Mas ainda era apenas uma suposição minha, seria demais romper o cordão umbilical ali de uma vez naquela época!

Eu assistia filmes em casa com a minha família, disfarçadamente chorava no sofá em silêncio, chorava contra o vidro no assento do ônibus e chorava no banheiro do shopping entre os intervalos do meu trabalho. As vezes eu tinha uma sensação de que me descolava do meu corpo e me assistia de fora, eu queria tanto poder me ajudar, aquilo não combinava mesmo comigo, mas não percebia como me ajudar e acabava me cobrando resultados. Me sentia dilacerado e desanimado, mas seguia todos os roteiros da vida, nutria pensamentos terríveis, como por exemplo de que o mundo continuaria exatamente normal alguns dias depois que eu partisse e não era, exatamente com drama, sentia que a vida era mesmo muito fútil para qualquer pessoa e não só para mim, me perguntava o porquê de tudo isso, porquê comigo? Não achava respostas. O meu trabalho era um dos piores lugares, no qual a maioria das pessoas parecia mesmo confirmar toda esta futilidade e falsidade nas relações. Hoje percebo muito que todo este limbo era criado ou intensificado por mim mesmo, como descer uma ladeira de bike sem freios… Não tinha como parar agora sem me esborrachar mais. De um lado eu queria voltar ao passado, para as situações antigas que representavam a felicidade, um apego mutilador que me impedia de viver o hoje e ver qualquer perspectiva no futuro. Eu não percebia o quão desamoroso eu estava sendo comigo. Eu não tinha desejo de me alimentar como antes, então pensei, como eu sequer fui capaz de por um fim naquilo tudo, vou parar de comer, assim fiquei cinco dias sem comer absolutamente nada, apenas bebia água, perdi cinco quilos, mas não me sentia fraco fisicamente. Então parece que o jejum forçado se voltou contra mim, um belo dia passei perto de uma casa de esfihas e comprei logo uma caixa inteira! KKKKKK Revivi!

 

Ainda tenho muitos escritos, desabafos e poemas dessa fase negra que mal sou capaz de reler hoje, mas sei o quanto é importante a gente se expressar nestas fases, ainda que depois destrua tudo o que foi escrito, é importante externar, faz parte da cura. Este texto é apenas uma parte de toda esta fase, ou se tornaria um livro! Hoje eu respeito, honro e celebro todo o “alongamento” emocional que esta fase me proporcionou e potência alavancadora que fez perceber que eu tinha dentro do meu Ser. Assim como outras doenças, não podemos tratar como vencida e ponto: "Eu Superei a Depressão!", melhor não fazer assim, temos que sempre estar atentos aos sinais e aproveitarmos para perceber e perguntar: o que esta situação tem a me ensinar sobre mim mesmo? Qual será que é o recado que esta tristeza/raiva veio me trazer? Será que não está me falando sobre algum tipo de autoabandono? Como eu poço me amar mais nesta ou nessa situação?

 

Sem querer fazer demagogia ao sofrimento, hoje também percebo o quanto fugimos das dores até como sociedade, isso não ajuda as pessoas, faz o deprimido achar que ele é o único a se sentir assim, a reprimir os sentimentos e assim piorar o quadro, esta fuga acaba tendo um efeito contrário, geralmente nos leva a uma anestesia da vida e repetição de padrões que mais queremos evitar, só que sem percebermos. Como eu li certa vez numa dessas frases de efeito da internet: “Há lições aprendidas no fundo do poço que não podemos aprender em nenhum outro lugar!”, outra: “Se chegamos até o fundo do poço, só resta uma direção a seguir: para cima!”

 

Mas também reverbera em mim até hoje, uma das falas da Rosimaria: “Aquilo que não me mata, fortalece!” e nos momentos de vitimismo (quem nunca?): “Nós escolhemos o que fazemos com aquilo que fizeram de nós!” Lembrei de mais uma: "Você quer mesmo isso ou você quer querer isso?"

 

Não importa quem você é, o tanto de "erros" que já cometeu ou dores que já sofreu... Independente do tanto de curtidas que você recebe nas redes, do tanto de “fãs” ou pessoas que se inspiram em você, se te copiam ou invejam, independente da sua satisfação atual com sua conta bancária, seu nível acadêmico, sua etnia, sexualidade ou características físicas: VOCÊ É ÚNICO! Nunca houve alguém exatamente como você e nem nunca existirá! Você é tão especial e sua história é tão incrível quanto a minha, quanto a de  qualquer celebridade ou outra personalidade com a qual você já se comparou para se sentir inferior! Por favor, pare de se comparar. Porém, se você evita perceber isso tudo por culpa, síndrome de inferioridade ou humildade tóxica, é provável que nem se Cristo viesse até você encarnado você aceitaria o seu Amor. Porque tendemos a rejeitar aquilo que desconhecemos, aquilo sobre o qual não temos nenhum parâmetro interno, mesmo que nos demonstrem amor, quando não nos amamos, este amor não encontra espaço em nós e não se “assenta”...

 

Então tudo o que eu posso te dizer é um convite, o qual tenho exercitado comigo mesmo, inspirado pelos dizeres da Louise Hay: olhe-se todos os dias no espelho, no fundo dos seus olhos, respire e diga: “Eu te amo! Eu te amo exatamente como você é!” Faça isso ainda que ache bizarro e sinta vergonha, experimente e veja o que acontece especialmente quando as coisas não vão bem! Mas também para celebrar cada pequena conquista.

 

Gratidão por sua visita aqui. Se você gostou do texto, envie para quem você achar que pode ser de ajuda!

 

Telefones Úteis:

Clínica Psicológica da Universidade Mackenzie da Consolação (atendimento gratuito)

(11) 2114-8342

Centro de Valorização da Vida (Ligue Grátis 188):

https://www.cvv.org.br/quero-conversar/

Parque Ibirapuera agora conta com plantão de psicólogos aberto ao público

https://www.psicologiasdobrasil.com.br/parque-ibirapuera-agora-conta-com-plantao-de-psicologos-aberto-ao-publico/

Maris, cura pela Ioga (Filme Netflix). Foi um filme que me inspirou demais a escrever este texto:

https://www.netflix.com/title/80210602?s=i&trkid=13747225

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