© 2016 Roni Diniz . Ator, Fotógrafo e Designer Gráfico.

Introdução do Blog

"Auto-Expressão é Empoderamento" e Falas do Diretor Antunes Filho

 

A cada nova fase artística eu constato, dentre um milhão de outras coisas, que a auto-expressão, pode ser uma poderosa forma de autoconhecimento e micro revoluções! Já faz um tempo que algumas falas do expoente diretor de teatro Antunes Filho rondam meu universo interno me impelindo a escrever sobre…

 

Recentemente, iniciei mais uma aventura, quem diria, como “professor”, coloco entre aspas porque eu nem me sinto confortável sendo chamado de professor, pois me considero eterno aprendiz e quando transmito algo que eu aprendi, sempre constato que realmente estou apreendendo-o duas vezes, é um movimento incrível, como se lançasse novas luzes sobre antigos assuntos, aprofundasse, dichavasse… Atualmente, estou compartilhando saberes de fotografia numa ONG aqui do Campo Limpo para pré-adolescentes e jovens adultos (vou deixar o link no fim do post a ONG super precisa de voluntários). Preparar as aulas me demanda um movimento lindo de organizar o conhecimento de uma forma que o torne o mais acessível possível (como ocorre quando escrevo aqui também), estar em constante contato e observação de mim mesmo também, principalmente em todas as experiências que eu mesmo tive como aprendiz, lembrando sempre:  O que me encanta? Me estimula, me desanima ao aprender, ao me expressar… Tudo para aprender, de novo aprender, sobre o jeito de cada um de aprender e descobrir sua própria voz dentro da arte da fotografia! Isso porque eu não vejo muito valor em simplesmente despejar conteúdos. Considero a Autonomia algo crucial na vida de um fotógrafo! O famoso "ensinar a pescar"... Ouso fazer sinapses o tempo todo do processo de fotografar com as relações humanas e com a vida. Acredito que esta percepção da praticidade e relação do que se aprende com a própria vida, estimula o aprendizado e aproxima os temas. Certa vez uma das estudantes me disse que tava parecendo uma aula de psicologia, pois me aprofundei falando sobre como o nosso subconsciente se manifesta na fotografia e em qualquer arte, bem como em nossos comportamentos. Em outra das nossas conversas mais recentes, revisitei a “integração potente” de uma consciência atenta sobre o quanto a função de entregar imagens ao mundo está absolutamente relacionado com a nossa capacidade de receber e apreciar; é a nossa abertura que sempre determina, amplia ou reduz nossa potência de ofertar…

 

“A fotografia se tornou um meio de expressão muito mais auto reflexivo, consciente de sua história e capaz de se aproveitar dela com maturidade. Consequentemente os movimentos de continuidade são tão formidáveis quantos os de ruptura…

A tensão entre a fotografia como registro de fatos e como expressão artística esteve presente em todas as etapas de seu desenvolvimento na qualidade de arte.” “Tudo Sobre Fotografia” de Juliet Hacking

 

A sensibilidade é absolutamente intrínseca à criatividade, este foi um tema do post anterior! Assim como a mecanização geralmente acelera tudo e reduz compromete a consciência quanto ao processo das coisas, digerir, apreciar e saborear, também compromete nossa habilidade natural de expressar, de devolver algo ao mundo somado ou diluído ao nosso toque e energia única, nos tornando muitas vezes meros reprodutores, consumidores anestesiado, portanto também incorre no encurtamento e até na anulação da nossa voz! Ironicamente, o pior é que nós mesmos consentimos com isso quando subestimamos o poder do silêncio saudável: o reconhecimento do próprio tempo de digerir, assimilar e nos enfileirados numa guerra inescrupulosa para ver quem chega primeiro. Aí cabem inúmeras analogias, é preciso saber ouvir para saber se expressar bem, correto? A audição (abertura, recepção) é totalmente ligada à fala (produção do som, significação, expressão), são princípios que parecem distintos, mas se interdependem! Ou são as duas coisas ao mesmo tempo?! É preciso ter um ótimo palato para ser um bom cozinheiro, todo ator, imprescindivelmente, precisa assistir teatro constantemente, assistir à Vida e a também a sua própria história, ué… A nossa percepção pode ser treinada, desenvolvida… Muitas vezes é necessário um treino para se “desindentificar” do próprio meio para percebermos se o feedback que recebemos não anda um tanto viciado também, isso exige treino! Para reconhecer qual é nossa voz fora da multidão também. Qual é a nossa voz interna sem a mutilação das censuras externas que muitas vezes se “incrustam” pelas paredes da nossa morada interior e nos deixa perdidos de nós mesmos. Assim como um degustador de vinhos vai cada vez mais reconhecendo as diferenças, nuances, desdobramentos de um sabor, é o nosso grau de abertura que determina a evolução da capacidade expressiva! De modo que estes dois princípios, aparentemente opostos, que se integram e fazem a coisa acontecer, também podem ser comparados ao princípio masculino e feminino integrados! O que se expressa e realiza (para fora) é por que em determinado momento foi “passivo”, se abriu para, acolheu (passivo), “gestou”! Tudo para depois retomar este ciclo ou dança que sustenta a vida, a natureza… Infelizmente, o conceito de passividade geralmente é confundido com alienação, omissão e inexpressividade, mas não é disso que eu estou falando. Me refiro ao estudo, escolha consciente e atenta do período essencial e silencioso para gestar, processar, digerir antes de expressar, este “silêncio” ou passividade, passa muito longe de auto-anulação! Não existe ser que manifeste única e absolutamente a energia masculina (para fora), mas existe o ser inconsciente de si sendo constantemente estuprado enquanto se nega a observar e reconhecer suas próprias lacunas, então não é difícil entender o porquê de a expressão deste ser, se manifestar sempre tão carregada de energia abusiva (que tem pressa, impõe e não respeita tempos diferentes do seu, esta analogia independe do gênero sexual e expande a noção de “abuso” para todos os tipos de relações além das humanas e românticas é claro)...

 

Parece que toda auto-expressão anulada ou silenciada externamente ou por si próprio, ainda que decorrente do medo da não-validação social ou do próprio perfeccionismo insaciável e carrasco é prenúncio de uma nociva compensação da balança logo adiante…Explico, imbuído da frustração ou trauma do silenciamento o sujeito caminha com esta informação dolorosa introjeta, prestes a ser despejada (quem nunca?), poucos dominam os recurso internos sempre disponíveis para “harmonizarem-se” sozinhos, até que encontrará algum distraído no seu caminho com um vácuo pré disposto a acolher essa carga amarga, ainda que não saiba deste seu estado ou seja induzido a manifestar este lado, muitas vezes também incauto e inconsciente deste processo  prestes a dar sequência ao ciclo doentio…

 

Provavelmente, quando o indivíduo desenvolve consciência deste processo, mais cedo ou mais tarde tomará as rédeas de si, a auto-expressão consciente provavelmente lhe apresentará um universo livre, infinito e independe da aceitação social ou de validação  externa, de modo que contribuirá, ainda que paulatinamente, por osmose ou também diretamente com micro e macro mudanças aonde quer que atue…

 

Antunes Filho

 

Eu tive a oportunidade conhecê-lo pessoalmente no ano de 2014, em uma palestra na Paidéia (Associação Cultural e Cia Teatral da região de Santo Amaro, da qual participei durante alguns anos), este encontro com o Antunes foi daqueles inesquecíveis! Eu já tinha ouvido falar tanta coisa sobre ele, tanto boas quanto ruins, por exemplo, que ele era do tipo de diretor que tinha acessos de raiva e lançava objetos no elenco, risos, mas lá, ao vivo, não emanava nada disso não! Uma voz baixa e calma, aliás a primeira coisa que ele censura é a impostação de voz que utilizamos no teatro para alcançar a última fileira, ele aponta esta “demanda” como algo que compromete fortemente a “verdade” do teatro. Lá estava aquele senhor, postura retraída, ombros encolhidos e gestos expressivos com as mãos, olhar assertivo, bem que poderia ser o nosso tio, no entanto, um dos grandes nomes do teatro brasileiro, reconhecido internacionalmente, em um tom totalmente despretensioso frente a uma plateia, composta em sua maioria, por pré-adolescentes, atores amadores, apaixonados, mas na qual, muitos ainda sonhavam em estrelar a novela Malhação ou pelo menos sonhou em algum momento antes de pôr a mão na massa, experiência que a Paidéia empreende muito bem. Se teve algo que ficou fixo em mim de tudo que ele nos ensinou naquele dia, exceto aquilo que não pode ser dito, apenas sentido, posso dizer que foi a “consciência do ar”. Não estou dizendo que eu saiba usar, risos… A respiração é o princípio de tudo e é uma consciência que não somente o ator como inúmeros outros profissionais e estudiosos estudam e aplicam criteriosamente… Lembro-me do Antunes dizendo algo mais ou menos assim: o que modifica é o ar, quando ator fala, inspira e expira, lançando o ar de um jeito, com uma carga que o outro ator, recebe, processa e devolve, também pelo ar, em um nível que transcende o movimento racional que premeditaria, mascarando o próximo gesto… Esqueça a manipulação do tom da voz, do corpo, tudo vem a partir do Ar!

 

Agora sou eu falando: A respiração é um princípio primordial das relações, mais acessível e ínfimo para nosso estudo aqui. A respiração é a relação de troca essencial para nossa vida! O ar que entra e o ar que sai, nunca igual... O oxigênio que passeia pelo templo do nosso corpo, talvez assim como andamos pela trilha de uma floresta. Deixando lixo? O ar que é uno conosco enquanto se modifica, nos modifica e nutre. A fala é resultado direto da respiração! É quando o ar expirado passa pelas pregas vocais (o termo correto não é “cordas”, mas sim pregas vocais) que a voz é produzida! O ser humano tem o privilégio de registrar as próprias expressões e elas estão carregadas de informações do seu mundo interno e do seu contexto micro e macro… Estes registros podem resgatar legados deixados ou galgar evolução em sua própria expedição… “Quando começa, como termina? Termina? Começa?”

Hoje eu posso reler os meus primeiros poemas e destrinchar ali, sumo do meu modo particular de sentir o mundo e interpretá-lo, sua evolução e/ou identificação com o externo, negações, projeções… Nossas fotografias velhas, acidentais e comuns, tão preciosas quanto despretensiosas…

O abismo tão infinito e humano que as letras expiradas por Shakespeare nos põe em contato, como espelhos de nós, e agentes transformadores enquanto as inspiramos conscientemente… O poema, a foto, a peça e a vida, o rio, a chuva, a semente, a flor… O hábito, o medo, o sexo, a tua fala, tão preciosa quanto despretensiosa…

Certa vez em conversa com um dos meus ex-diretores, ele me disse como o trabalhos dispendioso que temos no teatro não passo de um privilégio que a maioria não utiliza, imagine como seria diferente se um dos produtores que vive estressado com sua função monótona de produzir chinelos, tivesse a chance de saber tudo sobre a história daquela matéria-prima até chegar ali e o curso que ela vai seguir até chegar aos pés do usuário final… Não dá para fazer teatro sem essas noções quanto ao texto, histórias, personagens… O texto do abaixo me foi apresentado por um amigo querido durante uma dessas conversas de grupo de teatro em 2016:

 

“Enquanto não tiver auto-expressão é prisioneiro! A auto-expressão é o que dá identidade à pessoa, auto-expressão é fundamental. Por que as pessoas estão sempre tão subalternas na vida? Estão no cativeiro… Porque elas não tem auto-expressão! As pessoas vivem aprisionadas quando elas não tem auto-expressão. Você só se torna livre quando tiver uma auto-expressão, seja a literatura escrevendo, seja qualquer coisa, seja até um homem de negócio, mas tenha auto-expressão! Enquanto você não tiver auto-expressão você não é nada! (...) A auto-expressão é fundamental à liberdade do homem o homem só se torna criativo - Isto é, a base da vida - através daquilo que ele elabora, aquilo que ele cria... Só pode criar elaborar alguma coisa se tiver uma auto-expressão, as pessoas que estão prisioneiras aqui (faz um gesto corporal de pessoa recolhida), estão condenadas, tem que fugir disso! Tem que sair disso, por que você vai fazer uma cena, imita minha cena, imita outra cena, não tem liberdade. A hora você tiver auto-expressão você vai criar por você! Aquilo que você acha, não imitar. A maioria dos brasileiros está sempre atrás, correndo atrás, imitando por que não tem auto-expressão. Então vamos dar liberdade para o povo através de cada um ter a sua auto-expressão! Mas para ter auto-expressão tem que ter consciência de si, para ter consciência, primeiro, você precisa ser um “belo indivíduo” e de “belo indivíduo” galgar para um bom cidadão! E aí sim, enquanto expressão você começa a ser um bom cidadão!”

 

Antunes Filho (São Paulo/SP, 12 de dezembro de 1929) é diretor teatral. Vídeo Disponível em https://youtu.be/YjvZqVfCoFc. A descrição do vídeo no link tem uma biografia dele, mas também podem ser encontrados muitos documentários pelo Youtube.

 

A foto principal deste post é do 5º experimento de Permeável Dança-Performance: "A-cor-de-on" e a de baixo é do 6º Experimento "Escreva-me ou Leia-me", os registros foram feitos na Av. Paulista pelo Anderson Mendes.

Vídeos em: https://www.youtube.com/playlist?list=PLIp2iYJdNg5byrJetj9kFwrSTcdNmATtn

 

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As vozes externas que invalidam nossa expressão: http://www.ronidiniz.com.br/single-post/2016/11/30/O-que-valida-a-tua-arte

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