© 2016 Roni Diniz . Ator, Fotógrafo e Designer Gráfico.

Introdução do Blog

Envaginar-se. A potência da vulnerabilidade - Dia da Mulher

8 Mar 2018

 

Muito se fala sobre o poder da Vulnerabilidade, mas eu confesso que me soava um tanto estranho e até assustadora esta palavra. Tem alguém que tem mais medo da vulnerabilidade do que o guerreiro? Métodos de interpretação, técnicas de criatividade e até vivências de autoconhecimento exaltam a vulnerabilidade como grande potência. O ator que se tornou mecânico ou excessivamente racional, precisa reaprender a sentir e oferecer isso ao seu público ao invés de representar ou fingir: verdade e vida… Precisa reaprender a se deixar afetar! Precisa "envaginar-se"...

 

Vulnerabilidade relaciona-se imediatamente com sensibilidade, pois não se pode sentir se tornamo-nos invulneráveis, super protegidos, anestesiados, automáticos... Sensibilidade é uma característica muito facilmente relacionada à criatividade, natureza e vida! Não raro, quem mais cria é quem absorve e é mais facilmente afetado pela vida e pelo seu contexto, a criatividade é proporcional ao grau de afetividade do individuo. O meio social nos incute uma praticidade nociva e massivamente, uma cultura do medo que exalta a postura do guerreiro lutador invulnerável, a exaltação do embate e do conflito e o "drama" como formas de manter o interesse do espectador, seja com o público que veio ver a obra ou nós mesmos quando atuamos na grande peça da nossa vida! E funciona, a atenção é conquistada sim, mas o preço é alto, uma vida de guerra, medo e totalmente mental... Sabemos que a mente mente… Talvez muitos já estejam exaustos de encenar esta peça!

 

Ironicamente, a vulnerabilidade retorna como grande sabedoria quando a consciência se expande e a “esterilização dos sentidos” ou a auto pavimentação em prol da "prevenção" e decorrente do medo do imprevisível se saturam!

 

A coragem de ser vulnerável é também a coragem de abrir mão das máscaras (estas não passam de uma manifestação do medo da não-aceitação social e da tentativa de manipular o outro para ser aceito e respeitado), pois na essência todos somos sim vulneráveis ao outro e à vida, é a nossa essência! Isto não significa necessariamente uma fraqueza ou um convite ao abuso, como talvez crescemos presenciando a nossa volta e como aprendemos a acreditar que precisávamos evitá-la para poder interagir neste mundo hostil! Crenças determinam nossa postura diante da vida, nossa postura determina a resposta que teremos como retorno, as respostas reforçam ou transformam as crenças, sendo assim, o ciclo pode sim ser interrompido se experimentamos trocar de crenças!

 

Ser vulnerável não tem nada a ver com ser "pamonha"! Risos

 

A vulnerabilidade também está totalmente vinculada à capacidade de acolher, processar e devolver algo ao mundo com a nossa energia adicionada e mesclada, este processo, não por coincidência se parece com o grande dom de ser Mãe, não é mesmo? E de que outro modo a vida perdura, se não basicamente por meio da vulnerabilidade fértil e sagrada das mulheres e do nosso planeta?

Assumir a própria vulnerabilidade é também se abrir para entrar em consonância com o poderoso movimento da vida! A terra que é vulnerável ao toque da semente e da chuva, o ventre que acolhe o sêmen e gera a vida, o coração que reaprende a amar! O coração que reaprende o que sempre soube, a amar!

 

O atual estado de desconfiança e indiferença exacerbada do humano, não o protege apenas da propaganda abusiva, das manipulações políticas e sociais e das relações sorrateiras, indesejadas e parasitas (se é que protege...), mas o imuniza também do amor, do sentimento de unidade com o todo e do dom de ser portal da vida! Pois a esterilização do humano mecaniza as relações reduzindo-as à superficialidade e roubando-lhe sua grande potência e dom: a criatividade, a relação, o libido da vida!

 

Ao passo que assumir a própria vulnerabilidade de modo algum precisa ter um caráter de terra abandonada que pode ser invadida por qualquer um! Se vulnerabilizar é voltar a estudar e reconhecer os próprios limites, os próprios “Nãos”, o próprio tempo e "estações", as próprias sombras, é parar de maquiar para convencer a si próprio ou ao mundo de que se é o que não é. Se vulnerabilizar inclui riscos sim, mas nenhum risco maior do que o de estar morto enquanto ainda vive!

 

Enfrentar os próprios medos e se expor, de modo algum significa necessariamente assumir uma postura desenfreada e explosiva, destruidora da "ordem", como muitos argumentam ao defenderem um conservadorismo castrador da essência humana e um silenciamento nocivo da alma, esta que instiga a descobrir e se surpreender com a vida! Pelo contrário, ironicamente, é justamente o estilo de vida extremista e conservador que prende, cerceia e censura mais: postura que prenuncia os extrapolamentos para o outro extremo (um mecanismo natural de equilíbrio das polaridade que geralmente é muito trágico e descontrolado). Como nos ensina aquele velho exemplo da mola que ficou tanto tempo presa na mão que agora pula desgovernada...

 

Assumir e pesquisar a própria vulnerabilidade pode nos colocar frente a frente com os parâmetros cruciais para respeitá-la, agir mais conscientemente, em harmonia e também reconhecê-la e respeitá-la nos outros, reaprendendo a arte de lidar com ela. A vulnerabilidade pode ser perfeitamente simbolizada pela vagina, este órgão sagrado, por onde todos nós chegamos a este mundo e sobre o qual tão pouco conhecemos, nem nós homens conhecemos e possivelmente nem a maioria das mulheres conhecem a própria vagina, situação resultante de uma sociedade patriarcal, muitas vezes apoiada em dogmas religiosos manipuladores, fissurados em manter o controle das massas por meio do controle da sexualidade. O conhecimento da vagina, inclui, mas não pode ficar apenas restrito ao conhecimento físico e sexual, uma vez que ela é também o reflexo de um movimento muito maior que permeia toda a vida e as relações humanas. A “vagina” pode exemplificar o quão permeável somos à vida, como respeitamos ou não o nosso próprio tempo de absorver, acolher, processar e sim, parir, parir nossas expressões neste mundo! "Dar à luz"! O primor orgânico, reprodutivo e receptivo da natureza parece distante do que é comumente praticado numa sociedade que desaprendeu a digerir a vida, tão rápido fala, antes mesmo de mastigar e muitas vezes opta pelo alimento mais "prático" que lhe poupe o tempo de colher, lavar, descascar, preparar e sequer, sequer saborear o alimento e conhecer seus efeitos...

 

Que aspecto do nosso mundo interior é refletido na relação que temos com o aspecto feminino manifesto externamente em nós ou no outro?

 

Parece que "vagina" maior do nosso subconsciente coletivo guarda em seus micro-músculos os mesmos traumas e medos que os corpos sagrados femininos manifestam aqui, talvez estes sejam também os mesmos traumas que uma vagina poética, compartilhada por todos os gêneros também guarda: o coração! Coração violentado e tantas vezes silenciado. Cabe a nós exercitarmos a cura e a descoberta do prazer divino e do amor, exercitando-o com nossa mulher oculta e com as mulheres de carne osso a nossa volta, nas quais podemos ver nitidamente e sentir a materialização de todos estes assuntos! Qualquer ser humano vítima do abuso geralmente não reconhece mais a diferença entre o amor genuíno e novos abusos, muitas vezes fecha-se definitivamente e assume uma postura autodefensiva e bélica...

 

Infelizmente o passado não pode ser apagado, mas pode ser ressignificado, ao vivermos o presente, sem ignorar ou nos prendermos as dores do passado. Quem penetra este canal escuro, fértil e sagrado, ao fazê-lo com amor - o antídoto contra a violência - enquanto penetra-lhe, penetra a própria consciência e coração, cada canto não iluminado, cada prazer e dor desconhecida e latejante, cada medo, se isso acontecer sob uma relação de confiança e entrega mútua: polaridade masculina e feminina, interna e externa, para transpassarem juntos, curando-se e desprendendo-se das memórias recorrentes...  Como uma grande mulher, artista e amiga certa vez me disse: "Curar significa deixar ir"...

 

PS: Infelizmente eu não tive tempo hábil para pesquisar os autores e referências que germinaram as percepções que inspiraram este texto, além da própria vida é claro. Talvez no futuro eu acrescente aqui, ao passo que eu for reencontrando-os.

A fotografia que ilustra o post é de 2007, meu primeiro portfólio fotográfico: "Perceber", mais alguém conseguiu identificar o rosto de um mago por de trás da vagina desta árvore?

 

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