© 2016 Roni Diniz . Ator, Fotógrafo e Designer Gráfico.

Introdução do Blog

Agave Americana - Planta e Mito no Quintal em Três Atos.

 

De repente, apareceu um bulbo verde comprido e grosso no meio da planta, até então era apenas rasteira, isso foi em março deste ano. Olhamos admirados e eu enxergava ali várias analogias, parecia um falo, parecia um chafariz… Desde quando comecei a cuidar mais desse jardim despretensiosamente, no começo pretendia apenas dar uma aliviada esporadicamente no matagal que se criava, mas eu fazia questão de tornar este momento um ritual, arrancava mato por mato com a mão, pela raiz, para tocar na terra, eu sempre me furava nos espinhos enormes que nasciam nas pontas de cada folha desta planta, pontas grandes e folhas vistosas que se abriam sobre o chão como se fosse uma flor. Um dia cortaram os espinhos para evitar que nos machucássemos, eu tive dó ao ver naquelas pontas secas e escurecidas, uma mutilação da sua natureza e da sua defesa natural.

 

Em menos de um mês o bulbo já estava maior do que eu e saiam alguns galhinhos da ponta, perguntei no Facebook se alguém conhecia a planta, me indicaram um aplicativo que identifica a espécie através de uma foto: Agave Americana, planta mexicana, muito utilizada pelos índios para diversas funções como o artesanato e tecelagem, usada como matéria-prima para a Tequila!

 

Logo surgiram botões nas pontas dos galhinhos e curiosamente - pelo menos para mim que não manjo muito das plantas - agora o jardim não cria mais aquele matagal todo! A Agave se ergue bem no meio do retângulo de terra de uns 3x8m, acenando para o céu e levemente inclinada para a rua.

 

Floresciam graúdas e reluzentes flores amarelas, aos montes, a planta parecia um castiçal gigante natural. Eu as aprecio curioso que sou e faço alguns registros fotográficos. Noto que aquela imagem bela e forte parece que está em mim e reluz no meu interior mesmo quando as flores já se foram. É fácil ver nesta flor o rosto de alguém que amamos ou aquela luz que parece emanar de um sorriso de alguém apaixonado pela vida. De baixo para cima, vai florescendo degrau por degrau os galhinhos repletos de botões. Um dia parei para observar os insetos que ali se alimentam, eles fazem uma bela dança voando em volta daquela fogueira-flor. Divaguei sobre o sacrifício, sobre a trajetória daquela flor que vem embeleza, alegra, doa seu néctar até se acabar, murchar e se despetalar… É tão bela quanto efêmera. A impermanência da vida. Não é assim a mãe? Não são assim os artistas? Meio trágico eu sei, mas sou ator, né… E por aí vai… Aquele que toca um violino sozinho no meio da estação de trem, sem público que o assista, ou quem se beneficia e nem sabe é tão claro que reuniu coragem para exercer a sua essência ainda que no contra-fluxo e é feliz ali! Não, esta flor é como um Cristo em algum outro tipo de escala, pois não se trata apenas de uma doação qualquer, é possível sentir brilhar a energia do seu amor incondicional que se derrama desde a sua raiz até jorrar pela flor… Não se trata apenas de cumprir função que sustenta um ecossistema, é algo que abunda em beleza, poesia e luz… Ops! Eu estava equivocado na minha ideia de sacrifício. Isto não é sacrifício, não é pesado ou injusto, é natural, é ciclo, é algo que está tão cheio que transborda no seu tempo certo e beneficia outros...

 

Voltei a pesquisar, impressionado com esta florada. Um nome popular da espécie é Planta Secular, dizia que ela somente floresce uma vez na vida e morre, que seus mecanismos não foram desvendados ainda, pois ela pode florescer em 4, 7 ou 10 anos e ninguém sabe dizer precisamente o que dispara o seu florescimento surpresa. Ela vai morrer??? Fiquei triste, porém percebendo claramente que eu estava aprendendo algumas lições e deveria observar mais, ou melhor, sentir mais. Surgiram muitas mudas ao lado da sua base, fiz questão de distribuir para alguns vizinhos, parentes, amigos e conhecidos, também plantei algumas mudas em alguns lugares especiais para mim, como em Ubatuba e em Cajamar no mês de julho, eram meus agradecimentos… No caminho, andando com a planta no colo no trem, algumas pessoas se aproximaram espontaneamente de mim e me contaram histórias relacionadas com a planta ou suas parentes, uma senhora que vendia algodão-doce começou a falar de sua infância no nordeste e como usava suas folhas para curar machucados. Um rapaz da minha idade, pergunta o nome da planta e começa a falar sobre sua mãe e um trágico acidente de carro que sofreu e o deixou em coma por um tempo... Sem contar os inúmeros sorrisos que recebi talvez como retribuição por simplesmente portar esta planta? Parece que não era somente a planta em si, não sei o que nós juntos emanamos ou quais memórias afetivas ela proporcionou a tantas pessoas ali fora do seu contexto comum... É, parece que o que me restava era aguardar o curso natural da vida e aprender o que mais eu devesse aprender. Eu estava vivendo uma "ação performática não-intencional", risos!

 

A primavera estava se aproximando  e apesar da planta parecer um pouco desgastada, aos poucos ela começou a exibir novos botões e eu fiz questão de mostrar pra todo mundo em casa que a planta iria nos surpreender com uma primavera mais florida do que nunca!

 

Os botões se abriram e nasciam novas folhagens como se fosse flores, uma florzinha ou outra ali no meio e muitas folhagens, pareciam buquês de folhas. Um dia me disseram que aquilo era muda. Mas como? As mudas dela crescem na base da planta com raízes, não no topo e nos galhos… Um dia desses o pedreiro que está reformando se descuidou e deixou uma madeira pesada encostada sobre ela, alguns buquês de folhas caíram ao chão e resolvi plantá-los pra ver se pegava. Para minha surpresa, pegou! E agora notei que muitos dos seus centenas de buques já estão com raízes despontadas em galhos ao longo de toda a sua altura!

 

São filhas, que levam dentro de si esta seiva sagrada, esta história pra contar, o amor é assim, não se contém, germina, transborda, cura e se propaga. Esta deve ser a obra de arte mais linda e inspiradora que eu já experienciei!

 

Abaixo, Mayahuel, a Deusa pré-asteca detentora do poder visionário pelos sonhos e pelas alucinações, regente da Terra e do céu noturno.
Ela era representada com quatrocentos seios, nutrindo as estrelas e a Terra ou como uma bela mulher sentada em um trono, cercada de tartarugas e serpentes, segurando um prato com plantas alucinógenas que induziam os sonhos e as visões.

Segundo as lendas, ela se transformou em um cacto, de cuja polpa se fabrica o "pulque", uma bebida fermentada e alucinógena.

 Primeira florada em janeiro deste ano. A foto é de 22/01/17.

 

  

 

 A florada acontece de baixo para cima, ao passo que um "degrau" murcha o próximo floresce:

 Muda plantada em Ubatuba no Lar Sagrado Arco-Íris dia 30/07/17

 

Esta muda abaixo foi plantada na trilha de uma Caverna em Cajamar dia 28/07/17.

 

Enfim os buquês de folhas que eram, na verdade, filhas, mudas...

 

 

 

 

 

 

 É claro que esta história continua e minha relação com a Agave também...

 ATUALIZAÇÕES

Ensaio Fotográfico CORPO AGAVE http://www.ronidiniz.com.br/corpoagave

Sequência de Vídeos sobre a Relação com a Agave Americana https://www.youtube.com/watch?v=C7edIBB16IY&list=PLLklhFL_T-XICLzO-dD3j5AsDO2n8YpNm

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