© 2016 Roni Diniz . Ator, Fotógrafo e Designer Gráfico.

Introdução do Blog

O que aprendi tratando a minha voz. Compensa extrair as amígdalas depois de adulto?

Há quase 4 anos atrás minha professora de Expressão Vocal do Curso de Arte Dramática - que também é uma ótima fonoaudióloga - detectou uma "sujeira" na minha voz! O “instrumento” de trabalho do ator é o corpo, e voz é corpo, como ator temos que explorar e desenvolver nossos recursos e isto envolve muita observação, treino e consciência corporal, porém eu nunca tinha percebido a tal sujeira. Fui percebendo então, que ela só aparecia no meu registro médio e poderia ser um calo nas pregas vocais, o que seria perigoso (isso mesmo, não são cordas, são pregas vocais, rsrs). Bem, ela me indicou o Ambulatório do Ator da Sta. CASA, existe e é gratuito! O ambulatório pode ser acessado por qualquer profissional da voz como cantores, professores e etc., como podem imaginar a demanda é grande e a espera também, esperei quase um ano pra ser chamado para o tratamento (veja o link do Ambulatório no fim do Post). 

Comecei a fazer consultas semanais com fonoaudiólogo, era difícil, manter esta rotina e sempre deixar a tarde das sextas todas reservadas para estar lá, mas eu sabia bem o quanto eu tinha esperado pela vaga e que precisava me cuidar, não era luxo. Às vezes, nesta correria urbana, principalmente no meio artístico, sentimos culpa por sacrificar ensaios, reuniões e projetos em prol de cuidar de si... Eu tinha uma planilha de exercícios vocais e respiratórios que precisava fazer diariamente, religiosamente, não vi grandes resultados de imediato e, em casa, meu irmão me zoava perguntando sobre os barulhos e sons que vinham do meu quarto, rsrs. Fiz aquele tal exame no qual se introduz uma câmera pelo nariz do paciente para filmar a voz sendo produzida, no dia do exame, havia uma equipe enorme na sala, uns 10 médicos, muitos eram estudantes, me fizeram um monte de perguntas e produzi vários tipos de sons durante o teste, conforme as orientações. Ufa! Não havia o tal calo que só poderia ser resolvido com uma delicada cirurgia! Meu tratamento seguiu e confirmei todos os ensinamentos que eu tinha aprendido durante as aulas de Expressão Vocal no SENAC, a voz não é resultado de uma coisa só, mas de toda a nossa saúde, hábitos de vida, profissão e etc... Confirmei também a necessidade de ser muito disciplinado nos exercícios e na compreensão do porquê de cada exercício que se faz, a consciência é imprescindível para fazer com qualidade e muita atenção. Passei a tomar vários cuidados de preparação nas semanas nas quais eu tinha espetáculo, como dormir bem, ou melhor, dormir o máximo possível dentro das condições restritas, não beber álcool (ou se beber, maneirar e intercalar com água), beber muita, mas muita água em goles durante o dia, etc., aquecer e desaquecer...

 

Sono, refluxo e sinusite tem a ver com a voz?

 

Fiz endoscopia e todo um tratamento para normalizar o meu estômago e o quadro de refluxos que eu apresentava há muito tempo, tudo para ver se a voz melhorava em consequência. Meu médico perguntava tudo, sobre meu sono, meus personagens, pedia pra demonstrar interpretando, gravava minhas vozes, falamos sobre meu longo histórico de amidalites... Tive muitas amidalites, cheguei a ter três incidências em um só mês, só injeção de Benzetacil aliviava meu quadro, ficava sempre de cama, com muita febre, nunca nenhum médico do plano de saúde me indicou a extração das amígdalas, engraçado, é mito a história que contam advertindo de que tirá-las vai enfraquecer o sistema imunológico e outra, realmente é muito melhor tirar enquanto você é criança, no caso de quadros mais de 5 amidalites durante o mesmo ano, segundo meu médico. Me explicou que as defesas do nosso corpo são bem mais complexas e abrangentes e que a cada amidalite, cria-se uma espécie de “cicatriz” na amígdala e aquele ponto fica insensível e “inútil”, pois bem, as minhas amígdalas já estavam totalmente “inúteis” e ocupando um espaço muito maior do que o normal.


Sobre o meu sono louco e sem fim, que eu sempre senti desde que me entendo por gente, uma vez cheguei a dormir em pé na fila de um banco durante a minha adolescência, na época fiz terapia por causa disso, me receitaram florais de Bach, fiz acupuntura, mudei a alimentação, comecei a fazer musculação, tudo pra ver se meu sono melhorava e meu ânimo, tomei até ômega 3 daquele que a mulher fazia a propaganda no SBT, rsrs. Certa vez, num dos casos de amidalite brava, cheguei a fazer checkup geral com raio-x de toda a cabeça numa clínica top lá no bairro da Sta. Cruz, o médico detectou o meu desvio do septo, tenho os exames até hoje, mas ele não ligou os fatores! E nem passou perto de me sugerir qualquer cirurgia, só mais um monte de antibióticos e uma vacina caríssima. É claro que eu sempre fazia relações do meu corpo com o meu estado emocional, psicológico, tinha estresse, pressões no trabalho, perfeccionismo exagerado e intolerâncias com tudo, mas tudo era muito interno e muito pra mim, não a ponto de eu entender plenamente e tomar atitudes que me permitissem melhorar no todo. Pois no presente momento, eu já tinha mudado muito a vida e agora eu estudava teatro uma das minhas paixões, mesmo assim ainda colhia consequências físicas do acúmulo guardado de anos anteriores, além de vícios comportamentais, coisas que não se resolve do dia para a noite. Tudo isso ocorreu nos últimos 10 anos!

Já os médicos da Sta. Casa, depois de toda uma pesquisa do meu quadro, conversaram entre si e foram contundentes ao me indicarem 2 cirurgias de uma vez! Me assustei! Fiquei com dúvidas no começo e muito receio é claro, eu poderia optar por não fazer nada, pois tudo envolvia riscos, era opcional e fazia parte de um “estudo de caso”, mas acabei topando e continuei com o tratamento de fono que me trouxe vários benefícios e, ás vezes, melhorava meu problema, mas não totalmente. No fim dos exames, a sujeira na minha voz parecia ser resultado de fadiga, pelo sono sempre insuficiente ainda que eu dormisse desmaiado por 12 horas! Passei a ser mais diligente com as mínimas 7 horas de sono por dia que me eram possíveis, a equilibrar mais as baladas e os abusos com a minha saúde, ainda que era coisa bem rara para mim, não costumava me permitir ir a mais de uma balada no mesmo mês, muito menos quando eu estava em processos de ensaios e apresentações, coisas de virginiano. Passei a lavar o nariz com soro antes de dormir toda noite (os médico me indicaram isso, me explicaram que é mito aquela história de que o soro pode estragar o nariz) para ter mais qualidade no sono e aliviar as crises de rinite e sinusite, eu nem sabia que eu tinha isso, no meu caso era mais branda, só entupia o nariz e causava uns espirros, raramente eu sentia as dores de cabeça tão características, eu nem sabia que isso era rinite, no começo desta fase do tratamento também tomei alguns antialérgicos. 

Tive que esperar mais um ano para conseguir a tal cirurgia múltipla, fui avisado sobre o pós-operatório delicado e doloroso de 10 dias. Mas quando fui informado da data, putz! Iria comprometer os últimos e decisivos ensaios para minha próxima peça em dezembro (Sonho de uma noite de verão), não pude topar, seria um problemão sem solução para o meu grupo e pra mim que me dediquei a este trabalho durante o ano inteiro, minha médica então, transferiu a data para o início de janeiro com aquele ar acusador de decepção, mas como todos sabem, houve uma baita de uma crise na Sta. Casa devido aos desvios das verbas públicas, um monte de gente com tratamentos urgentes foi prejudicada, o meu tratamento não era urgente, mas era crucial para o meu tratamento progredir... 

Saiu em fim! Fiz numa sexta-feira, tive duas primeiras noites inteiras sem dormir, me engasgando com a própria saliva, sem o nariz íntegro para respirar. Foi bem pior do que os médicos me disseram, rsrs, cada engolida de saliva doía muito, como se houvesse uma afta imensa na garganta inteira, comer era um tormento, ou melhor beber, dieta de líquidos e frios, passava fome, fraquezas, repouso total, nem tinha forças para fazer nada mesmo, tentar falar doía muito, não valia a pena, só buscava um jeito de respirar menos doloroso e ficava bem quieto, mas ufa tudo passou! Que bom que eu tinha feito o método da Marina Abramovic um mês antes! Engraçado que em momento algum eu me desesperei. Na quinta-feira seguinte, tirei os pontos do nariz e já pude ir voltando a comer aos poucos, ainda sentia uma dor e incômodo como o de uma dor de garganta quase um mês depois, mas isso não era nada perto dos primeiros dias! Então fiquei ótimo e valorizando muito mais um prato de arroz com feijão!!! A emissão da voz e a minha percepção dela ainda ficou estranha demais durante um bom tempo, devido às mudanças no aparelho fono-articulatório, mas foi melhorando sutilmente e a sensação quando tirei os pontos e sujeiras do nariz? Fiquei quase afogado com tanto ar! Nossa! Como que eu conseguia respirar antes da cirurgia? Eu não sabia ainda se tudo isso iria resolver cedo o problema da minha voz, mas minhas noites de sono tornaram-se muito mais revigorantes e com muitos sonhos! Ainda fiquei mais uns 12 dias sem poder frequentar a academia, nem dançar, pegar peso e etc. Foi tudo interno, quem me via jamais imaginava tudo que estava cicatrizando por dentro de mim, para alguns parentes e amigos curiosos eu até topava abrir o bocão e os via assustados com aquela imagem dos pontos, do sininho inchado que parecia um polegar e das crostas esbranquiçadas que se criavam naturalmente. Cumpri religiosamente as 5 lavagens diárias das narinas para desobstruir, ainda que fosse doloroso e angustiante. Tive que retornar à Santa Casa, de seis em seis meses após a retirada dos pontos para fazer um teste de olfato e verificar se não tive perdas no olfato, mas graças a Deus, somente melhorou!

No mais, foi bom ter dado aquela parada da rotina louca, quando eu não estava com muita dor, rsrs, ficava observando o fluxo e o ritmo na minha casa e lembrando como eu me encaixava nele, que loucura! Era como se eu enxergasse o meu fantasminha sempre passando atrasado pela casa. Nossa vida não tem pausas no dia, não é? Estranho que cada vez mais, vamos fazendo as coisas automaticamente e nesses dias, sem escolha, eu estava consciente de cada gole e ainda mastigo devagarinho cada colher... Cada dia... Cuidar da nossa saúde e procurar bons médicos, questionar, é um investimento muito importante e de longo prazo!

 

Septoplastia, Turbinectomia e Amigdalectomia

 

Eu escrevi este texto e postei no Facebook no dia 2 de maio de 2015, uma semana após a minha cirurgia tripla: septoplastia para correção de desvio de septo nasal, turbinectomia (ampliação das aberturas dos canais atrás das narinas) e amigdalectomia (extração das amígdalas). Após o repouso e a retirada dos pontos (foram 3 de cada lado, em cada amígdala e um lá dentro do nariz), voltei às consultas de fono, notamos que mesmo após a cirurgia eu ainda apresentava a tal “sujeira” na voz natural, pois nas vozes moduladas (de personagens) nunca aparecia, os médicos chegaram à conclusão de que isso tinha se tornado um traço expressivo meu, devido ao hábito. Continuei a fazer os exercícios e percebemos que melhorou muito, comparando as gravações. Nas consultas e nos exercícios em casa, eu treinava cada músculo facial, abdominal e do pescoço que interferisse na produção da voz. Mas os maiores benefícios que colhi com toda esta epopeia foi a melhoria incomparável na qualidade do meu sono, não ronco e nem babo mais no travesseiro como antes! Risos, me acordo renovado e animado a cada manhã, não mais como um zumbi, tenho mais resistência nas atividades físicas decorrente da melhor qualidade de respiração e sono. Nunca mais tive uma amidalite, a garganta quis inflamar algumas raras vezes, arranhando como acontece com a maioria das pessoas e certa vez, senti esta inflamação mais dentro do canal, na laringe, mas nunca com o grau absurdo das infecções que eu tinha antes e que me deixavam de cama ardendo em febre. Então, felizmente posso dizer que só colhi bons frutos da coragem e persistência em enfrentar e resolver o problema e mais ainda, aprendi muito com os dias nos quais "pausei" a minha vida, experimentei novas maneiras de respirar e de mastigar cada colherada de comida e de vida! Mas tenho trauma até hoje da sopa Vono, hahaha! Aprendi a escutar mais o meu corpo, inclusive as doenças, a não querer pular etapas, eu já era contra isso anteriormente, mas muitas vezes tentamos fazer isso de maneira mais sutil e inconsciente, por osmose ao contexto e entendi melhor a urgência de me ouvir mais, aderi à meditação simples, como forma de me desacelerar, fui perseverando e sendo paciente com os intervalos sem conseguir fazer (no meu caso, consistia em parar, sentar, fechar os olhos e respirar por 15min, observando o corpo e as sensações, só isso!). Passei a olhar para o meu corpo não só como mero instrumento que preciso usar, e por isso tem que ser cuidado, mas tentar entende-lo mais, ser amigo...  Hoje, mesmo quando estou doente e tenho mil coisas para fazer - demandas que não cessam nunca - sempre percebo importantes motivos para uma pausa e paro, pois se não nos damos isso, nossa natureza, em sua infinita sabedoria, providencia de um jeito que precisar ser acatado...

 

Como este relato sempre vem à tona durante conversas com outros atores, cantores e outros, achei válido compartilhar tudo por aqui e para mim, sempre é um exercício ímpar retomar aprendizados. Espero que você possa tirar algum proveito, se ficarem dúvidas, usem o as janelas de diálogos abaixo e eu terei prazer em responder se eu puder ou souber. Um grande abraço!

 

Conheça o Ambulatório dos Atores na Sta. Casa http://www.otorrinosantacasa.com.br/laringologia.asp

Mais informações sobre o funcionamento da voz. http://rede.novaescolaclube.org.br/planos-de-aula/fisiologia-da-voz-humana

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