© 2016 Roni Diniz . Ator, Fotógrafo e Designer Gráfico.

Introdução do Blog

Receita caseira - Iogurte Natural de Morango

Eu caminhava para casa após o almoço, após um trabalho, tarde dourada, passos apressados, “home office” para fazer antes de correr para um trabalho no Centro. Dona Maria estava ali sentada na entrada da sua casa, “Boa tarde!” Eu disse.  “Boa tarde! Roni, você gosta de iogurte natural de morango? Quer uma receita? Prometo que não demoro pra te passar?”. “Eu gosto muito!” e me aproximo. “Não sei o porquê, mas toda vez que eu estou fazendo esta receita eu me lembro de você, Roni!”, “Dona Maria, eu adoro estas coisas que a gente sente inexplicavelmente e sem motivo!”. “Você ferve um litro de leite, deixa amornar, coloca um potinho daqueles de Yakult, cobre, deixa descansar até o outro dia, coa, mistura com um saquinho de gelatina de morango e uma lata de leite condensado, mexe e está pronto!”. “Uau é fácil mesmo! Acho que vou me lembrar até das medidas!”, “Eu sempre fazia esta receita para o meu neto, ele adorava, sempre me pedia para eu fazer! Ele me dizia que só o meu saia com este sabor”, “Deve ser por causa do amor de vó, que não tem igual, né Dona Maria?” eu disse sentindo toda a ternura que seu olhar derramava, ela sorri e responde: “Avó é mãe duas vezes. Mas ficamos muito tempo sem nos ver por que tivemos problemas com a mãe dele, as pessoas diziam a ela que eu poderia roubar o menino dela, posso pegar um copo pra você experimentar?”, “Sim eu adoraria!” e enquanto ela me contou aquela história era como se eu pudesse ver o seu neto correndo por aquele jardim que parece uma floresta, pedindo a ela pra fazer iogurte ou simplesmente olhando em seus olhos com aquele amor e confiança de um filho que encontra nos olhos de sua mãe, uma “mãe duas vezes”. E eu que não tive nenhuma, bebo naquele copo de iogurte todo aquele amor, bebo sem culpa, e percebo que não é a única vez, tendo a impressão de que mais contribuo do que usurpo qualquer coisa, pois a essência daquele amor é transbordar e não guardar... A cada gole, notas de morango com aquele sabor azedinho de iogurte natural, minha irmã era adolescente e também fazia para mim e meus irmãos mais novos este mesmo iogurte natural. Ele tem sabor de infância criada por irmãos, gratidão, amor de avó transbordante que me encontrou hoje aos 31 anos, tem sabor desta tarde ensolarada, tem memórias de um neto amado e esta sensação de um quintal arborizado cheio de frutas e aromas no meio desta cidade que querem ser colhidos com amor. Eu queria ficar ali por muitas horas, e ainda estou lá durante estes dois dias, pois isso foi na sexta e hoje já é domingo, cinza, frio e belo, com alguns raios solares repentinos...

 

Um rio não se nega a hidratar as margens por onde passa ainda que sua meta seja o oceano, ainda que talvez nem chegue lá um dia ou que chegue! Amar pode ser como observar o rio que se esvai “de” e “através” de você e ser grato ao sentir e ao observar o que ele faz... Sabemos bem o que acontece com água parada. Liberar estas comportas é como evocar indiretamente o mesmo banho em você logo em breve ou tanto faz, ainda que a meta do seu amor pareça não ser alcançada, emanar e permitir que outros se beneficiem e se saciem às suas margens, a medida que os sinais inexplicáveis anunciarem este convite e encontros, o olhar da pessoa amada te encontrará de diversas outras formas, seja uma mãe, um neto, um irmão ou tua alma gêmea, mesmo que ela “pareça” inacessível ou não esteja mesmo mais aqui entre nós... Por que se estiver e se permitir, já sabemos o que fazer não é? Este amor fica impresso em memórias, sons e matérias, casa, roupa, cheiros, numa receita e num copo de iogurte, não para nos fazer sofrer de saudades, mas porque pode ser degustado por inúmeras pessoas sem gastar ou roubar nada nunca de ninguém, pois quanto mais se esvai, mais cresce e se expande... Mas se a nossa criança interna, numa birra, se recusar a compartilhar e se deixar ficar no sentimento de posse ou de que foi preterida, abandonada e teimar em ter tudo exatamente como quer e a seu jeito e modo, terá um tempo necessário até descobrir por que o mundo parecia negar-lhe o amor, mas isso também passará e pode ser tão belo quanto os resquícios da velha estação que anunciam a nova...

 

Roni Diniz

 

02/07/17

 

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