© 2016 Roni Diniz . Ator, Fotógrafo e Designer Gráfico.

Introdução do Blog

Nosso mundo é fértil às uniões que ousem conservar as singularidades? A militância une ou segmenta?

 

Como viver só em bando? Como viver só? Como viver? “Como” subtende a busca de algum tipo de método ou instrução.  É possível unir-se aos outros e ainda assim preservar nossos mundos distintos, nossa integridade? São perguntas que, a meu ver, precedem a arte e os grupos de teatro, dança e outros, pois lidamos o tempo todo com estas alianças temporárias ou mais longas que tendem a se transformarem e nos transformarem diariamente. Cada rompimento é normal, mas nem sempre é suave e fértil para um recomeço. Minorias se organizam e lutam com causas fortes e urgentes que merecem atenção, respeito e ouvidos atentos, mas ao mesmo tempo brotam medos, intolerâncias, ameaças e outras disputas que nos apresentam novos colapsos e novos muros e repulsas. A praça das artes no centro de São Paulo foi cenário de três encontros em dias diferentes, com pesquisadores de áreas distintas (arte, filosofia e antropologia). Encontros gratuitos abertos ao público proporcionados pelo grupo Vão de Dança Contemporânea (06 e 20/02/17, 06/03/17), fruto de um projeto subsidiado pelo Programa de Fomento à Dança. As três palestras tinham um tema central: Como viver só em bando? O intuito era fomentar o debate sobre autogestão e modos coletivos de vida na atualidade. Obviamente a consideração desta pergunta e a aparente polarização das duas condições (só x bando) também me despertam uma reflexão violenta em torno dos processos e grupos pelos quais eu passei e passo atualmente. Ao invés de buscar respostas definitivas às perguntas que dão título a este texto, eu prefiro deixá-las no ar, antes de trazer a tona o que eu pude guardar destes encontros preciosos. As falas destes pesquisadores ousam nos convidar a mergulhar e “surfar” em um universo vasto de provocações e considerações que desafiam a compreensões-clichês das relações contemporâneas, às quais estamos “condicionados” e, às vezes, respondemos automaticamente como modo de resistência artística e como indivíduos que buscam, diariamente, conciliar a vocação de viver/fomentar arte e cultura, movimentos coletivos intrínsecos deste fazer, versus o posicionamento guerrilheiro em prol da sobrevivência - o pagar as próprias contas e o “despontar” - que o voraz mundo de competitividade desregrada nos cobra a cada segundo (pois tempo é dinheiro! E a máquina capitalista atropela tudo, terras, índios, artistas, minorias, casas antigas, viciados, sentimentos, arte, histórias, dignidades e por aí vai...).

 

 

Tenho que fazer um esforço para não começar a listar aqui os pontos que, a meu ver, tornaram utópica a desejada realidade de viver em grupo e ainda assim conservar as singularidades, pois os próprios objetivos de se montar um grupo que tenha como meta a arte, por exemplo, já estão, desde o início, inevitavelmente atrelados às concessões e, muitas vezes, poluídos, ops!  Incrustados de metas e “apegos” que o possibilitem sustentar um "identidade", entrar em algum tipo de competição, seja em prol de um edital, de uma pauta, de algum prestígio ou de simplesmente resistir e militar para continuar a existir... O cenário moderno também nos mostra que “não despontar”, significa ficar para trás, na mesmice, numa singularidade anônima e insignificante para um mundo sedento de fama e status. Sedento não só de ter e ostentar isso, mas que também cobra aos filhos e irmãos a fim de validarem também suas existências, cobrança em voz alta ou dissimulada. A competição pode até ser útil para unificação de um time, mas geralmente resulta também na anulação de qualquer empatia ao outro lado ou sob uma boa dose de seletividade, caso contrário, esta ponte poderia ser rapidamente interpretada como perigosa fraqueza. Sempre competir e alcançar “mais com menos”, “concorrência”, me parecem mais conceitos de marketing do que de arte... Eu não consigo ver nenhum valor na arte se ela não mexer com empatia e consciência e isso tudo me parece um grande conflito atual!

 

Mas tentarei rever aqui alguns pontos que consegui apreender destas palestras preciosas, férteis à reflexão e à abertura de consciência e vamos ver o que acontece...

 

O ator Renato Ferracini e o desafio de repensar o conceito de corpo e identidade para então experimentarmos afetamentos e potência.

 

Enquanto o Renato Ferracini nos conduzia em uma fala embasada nos conceitos do filósofo Espinoza acerca de um novo entendimento do “corpo”, “encontro triste” e “encontro alegre”, passava um filme na minha mente, cenas da sua atuação nas peças Café com Queijo e no seu mais recente trabalho solo chamado “Dissolva-se-me”. Neste último, eu me deliciava ao notar como ele brincava em cena, desde o momento da fila para a entrada, borrando as linhas que aparentemente diferenciam o ator e o personagem, o ator e o público, uma pessoa de outra... Me recordo das reações do público que muitas vezes pareciam não notarem as sutilezas e as questões implícitas ali, dignas de outros estudos. Lembro-me de uma discussão com um amigo meu que me fez concordar com ele que este tipo de trabalho (não linear, abstrato...) não é “popular” e muito menos “vendável”, logo, uma linha pouco indicada para um grupo como o nosso que estava começando e precisava se consolidar, precisava de público...

 

Nesta palestra do Renato, o conceito de identidade vinculada à função do sujeito é posto em cheque e uma nova compreensão desafia nosso raciocínio. “Pensar é um ato de violência”, pois causa terremotos e deslocamentos e é também um ato de invenção e criação. “Cada um de nós é um conjunto de partes cuja relação entre elas nos define. Assim como cada uma das partes ou órgãos do corpo...” e não as nossas funções sociais, profissão, origem e etc.

Neste conceito, a potência do corpo é definida basicamente pelas capacidades de relações. Qual é a qualidade das suas relações? (capacidade de afetar e ser afetado). Cada um tem um grau de potência e este só pode ser descoberto num ato de experiência, mesmo assim, este grau de potência é temporário.

 

“Encontro Triste”: É quando somente uma das partes aumenta seu potencial em detrimento das outras (por exemplo: estupro). Quando o Renato emite esta palavra, é como se um mapa se desdobrasse a minha frente, no meu modo de ver, toda a nossa sociedade é baseada numa “política” de estupro, da Terra, de nossos dons e habilidades, do nosso trabalho e, neste insight, produzi um conjunto de objetos artísticos chamado de Kit AntiEstupro no ano passado (risos), com a intenção de materializar posturas sociais de autoafirmação e defensiva de pessoas que, no fundo, tem um imenso pavor de sofrerem um estupro e, por isso, como numa tática de guerra, temem as relações horizontais, porosas e mutuamente penetráveis e buscam submeter os outros a um regime de poder baseado no uso objetificado do outro, descartabilidade, e, muitas vezes, humilhação e enfraquecimento do outro, sem perceberem que nesta cadeia, também acabarão sempre nas mãos de um algoz. Esta é uma postura, da qual podemos achar vestígios em todos os tipos de relações sociais, afetivas, profissionais...

 

“O estupro é um programa político preciso: esqueleto de um [sistema] opressor, é a representação crua e direta do exercício do poder. Designa um dominador e organiza as leis do jogo para que possa exercer seu poder sem restrições. Roubar, arrancar, extorquir, impor, se assegurar de que sua vontade se exerça sem entraves e de que possa gozar de sua brutalidade sem que a outra parte manifeste resistência. O gozo da anulação do outro e da sua palavra, da sua vontade, da sua integridade. O estupro é a guerra civil, a organização através da qual o sexo declara ao outro: tenho todos os direitos sobre você e te forço a se sentir inferior, culpada e degradada.” Virginie Despentes, Teoria King Kong” Mais uma citação do Programa da adaptação Blanche de Antunes Filho,

 

 

Voltando à palestra, “Encontro Alegre” é a situação na qual todas as partes ampliam sua potência a partir da relação.

  • A “passividade” é uma condição caracterizada por uma espécie de prontidão inconsciente aos encontros aleatórios. Na qual o sujeito fica a mercê de qualquer encontro que pode ser alegre ou triste, sem escolher ou interagir conscientemente.

  • “Artes presenciais subtendem coletividade no processo ou no espetáculo, deslocamento e inventividade afetiva, postura política e postura estética.”

  • Invento outras formas de afetividade para ampliar minha potência no mundo? (Relações)

  • Invento novas relações ou simplesmente as reproduzo?

O medo organiza a passividade e a objetificação do outro. Ao passo que singularidade e coletividade estão sempre em movimento, demandam tempo e trabalho árduo. Nada garante a continuidade de um coletivo, o próprio ato essencial de se reinventar pode significar desfazer a relação atual e iniciar outras. Buscar o comum significaria nivelar as singularidades, ao passo que mantê-las requer a criação constante do novo “comum”. Este processo requer uma passagem pela pergunta: “Eu ainda quero reinventar esta relação com esta (s) pessoa (s)?”

 

 

O filósofo Peter Pál Pelbart e o conceito de coletivo que “preserva as distâncias, o jogo das distâncias e proximidades, as diferenças”.

 

Coincidentemente ou não, a fala do filósofo Peter Pál Pelbart também resgatou os conceitos de Espinoza, além do ator, agora é outro filósofo quem ressalta que as “paixões tristes” são úteis para o exercício do poder, pois inspiram tremor e impotência aos seus súditos. A “tristeza” (é o nome do conceito filosófico) significa diminuição de uma potência. Nós não conhecemos previamente as nossas potências e afetamentos, pois estas relações são incessantes e não temos uma cartilha que nos dê seus gráficos de antemão. Cada composição de partes tem uma potência singular de afetamentos e organização, não é uma mera soma das partes!

 

Como é que nos envolvemos com o outro? Como envolvemos o outro em nosso mundo e ainda prezamos por sua integridade? O que preservamos de nós mesmos quando somos envolvidos? Vários mundos coexistem ou eles se fundem em um só como um corpo múltiplo?

 

Agora resgato uma consideração do Peter que também me fez visualizar o universo com seus planetas em órbita, cada um com sua singularidade de dança ou órbita distinta que produzem a harmonia do nosso sistema solar:

 

“Um indivíduo é uma certa relação de velocidade e lentidão. O sangue flui numa velocidade e outras substâncias em outras, esta relação nos faz velocidades e lentidões múltiplas que se compõem e se afetam.”

 

Algumas características notáveis em um plano de composição (grupo, projeto, pensamento...):

Que haja o mínimo de consistência ou se decomporá. Esta consistência envolve um agenciamento, ou uma multiplicidade que deve ter unidade singular.

 

As multiplicidades se recusam a serem dominadas. Assim como tribos que recusam a figura de um governante, seu chefe não tem poder. O acúmulo de poder é evitado a fim de manter a horizontalidade.

 

“Multidão” é a modalidade que esconjura o comando humanitário e preserva a multiplicidade. São heterogêneos não submetidos a um único comando, mas não são um mero agregado, são, ao mesmo tempo, comum e singular. São singularidades que se envolvem mutuamente, mas não se fundem, preservando a heterogeneidade, a pluralidade.  O contrário deste conceito seria a massa, o fascismo...

Agora vai parecer que estamos falando de química: “Como preservar a multiplicidade na composição sem perder a sua consistência?” Como ser envolvido por outro mundo sem perder o próprio mundo? Ser afetado, atravessado, mas não fusionado, não homogeneizado. Um conceito de coletivo que preserve as distâncias, o jogo das distâncias e proximidades. A fusão não é o conceito desejável, pois este abole as distâncias. Também não buscamos segmentação das classes, mas o jogo das diferenças.

 

“A solidão do artista é a mais habitada do mundo. Povoada por afetações e encontros múltiplos.”

 

“Talvez um dos grandes desafios contemporâneos seja desertar, mas não sozinho” (até veio na minha mente o sorrisinho do Peter dizendo esta frase de “Eureka!”). Criar novas alianças, experimentações (não-fórmulas), novas modalidades de viver “só-junto”.

 

No passado, resistir era se entrincheirar, mas agora esta postura não serve mais, resistir é como “surfar” na onda, ser maleável, flexível, “criar é resistir”. Não cabe mais simplesmente ser “contra”, pois assim você permanece em função do “inimigo”. 

 

“Temos o desafio de desenrolar os fios para deslocar configurações.”

 

“Não é viver na busca de algo desejável, mas trabalhar com o que o desejo produz AGORA.”

 

“Propor intervenções que produzam rachaduras que alterem o campo de forças.”

 

“Pois submeter todos ao mesmo ritmo esmaga o ritmo singular de cada um”.

 

Quase no fim da sua fala, diante de uma das perguntas do público, o Peter relembra de uma experiência com um grupo de teatro de loucos do qual ele era o diretor, a bordo num cruzeiro para se apresentarem. Apesar do aparente cenário de laser e entretenimento, o fator que ele destaca é justamente o “assédio do entretenimento incessante” em um local no qual você “tem que ter prazer o tempo todo” e o sujeito é submetido ao tempo do navio, os indivíduos são cerceados de produzirem temporalidades singulares, uma espécie de “morte por saturação”.

 

Ao retomar os conceitos de Espinoza, agora ele diferencia as incidências das “paixões tristes”, as inevitáveis e as incutidas estrategicamente a fim de reduzir a potência do indivíduo e implementar a exploração.

 

 

“Flutuações são inevitáveis e imprescindíveis ao crescimento”, por exemplo, o encontro com novos pensamentos pode inevitavelmente ocasionar uma decomposição (paixão triste) para abrir lugar a outras possibilidades. Outra questão é que uma valorização da alegria deve ser distinguida do mero entretenimento!

 

Voltando à pergunta inicial que intitulou as palestras, “como viver” abrindo mão de tudo aquilo que impede de viver? Camadas, carcaças e etc. desnecessárias à vida. Como a vida pode se libertar de tudo o que a impede de explorar suas variações. Tudo o que reduz a vitalidade. Como descolar da obsessão do progresso para então “viver”?

 

O Peter ilustra este esforço com a metáfora da “longa e suada conquista para se chegar à escrita simples”. Paira sobre a tela de pintura do artista toda a história da pintura, logo a tela já está saturada antes do primeiro gesto de pintar. Como remover os clichês para chegar à tela em branco e então ensaiar o gesto?

 

“O que é que a gente pode largar? O que é viver? O que é descartável? O que pode ser “viver”? O que “viver” pode? O que nos impede de produzir modos outros?”

 

“A questão não é “quem” fala, mas “o que” fala através de ti.” Foi sua fala quando o tema da apropriação cultural em torno das polêmicas sobre o uso do turbante vieram à tona.

 

O antropólogo Pedro Cesarino e o aparente paradoxo de acessar a sabedoria ancestral indígena e não nos tornarmos “novos colonizadores”.

 

A fala do Pedro Cesarino, antropólogo e pesquisador em etnologia indígena, traçou um contraponto detalhado entre as características do homem moderno e urbano e os seus saberes organizados dentro dos seus conhecimentos e experiências versus a sabedoria ancestral dos índios e seus modos de viver e se organizarem em sociedade.

 

No delineamento do seu pensamento, transcreveu o homem moderno como um sujeito fechado em suas referências, recluso à predominância da razão, um homem imperialista, fruto da separação constitutiva que funda o nosso mundo branco como uma civilização construída sobre o genocídio e o saque, até chegar ao paradoxo do desmonte civilizatório atual, a volta do fascismo como aparente solução, e suas oscilações características, modernos avanços e regressos chocantes, como o primeiro presidente negro e em seguida um Trump, a Direita “soft”, o resgate às sociedades indígenas tradicionais fechadas e a volta ao recalque patriarcal e ao autoritarismo.

 

O colapso atual envolve a terra irreversivelmente alterada pela ação humana, o homem dominando a natureza, separado dela e suas decorrentes consequências como os fenômenos climáticos que são finalmente vistos – só agora - como fatores humanos (crise hídrica por exemplo). Os fenômenos naturais não são mais previsíveis, o que impossibilita o seu controle e influi diretamente nos fatores humanos e sociais.

 

 

O Pedro observou na sua fala, o quanto a mitologia dos povos indígenas envolve respeito pela natureza e reverência aos elementos como a um ser (a montanha, o rio e etc. e eles podem revidar). Enquanto a postura do homem branco se baseia numa negação de proliferação dos híbridos (humano-cultura), na qual Belo Monte, por exemplo, é visto como apenas um implemento técnico.

O homem urbano, letrado, escolarizado, não dispõe mais um reportório suficiente para lidar com as problemáticas atuais, pois ele faz parte dela! Surge então, o pensamento de restaurar as formas de conexão, aliança, contágio, convívio, em prol de novas fórmulas.

 

Neste momento o Pedro começa a compartilhar suas percepções sobre a sabedoria ou a postura dos povos indígenas que observou durante o tempo em que viveu com os marubos:

 

“Eles parecem não perder nunca a compostura, a alegria de viver, o respeito e o bom humor, mesmo em situações extremas, como o genocídio, a doença e a fome.”

 

A solidão não faz sentido aos índios, pois “pessoa” e “parentesco” é a mesma coisa, não existe a noção de indivíduo (eles queriam que o Pedro se casasse com alguma índia, criando assim um parentesco, para que fizesse sentido a sua presença ali).

 

Para os índios, o chefe é “Caia” (palavra que significa extensão corporal). Também usam a mesma palavra para se referirem às outras coisas: “Caia” do rio. “Caia” da árvore. Eles possuem um conceito fractal que dilui e não tem nenhum foco em resguardar as individualidades. A maloca é um corpo, no qual vários duplos habitam.

 

Em suma, a organização dos índios e o seu conceito fractal que dilui a individualidade demonstram na prática uma forma de existir e estar junto que é mais duradoura do que a nossa. A sociedade indígena se transforma, mas é feita para durar e não viola suas próprias condições de existência. Um modus operandi mais inteligente que o dos ocidentais, depende pouco de prédios, erudição e parafernália cara que demanda gastos e manutenção.

 

Nos resta então, estabelecer a conexão entre os mundos! “Uma tarefa profunda e uma contribuição ao mundo”.

 

 

Mas como transcender o paradigma de culpa e vilanização do homem branco e ousar construir esta ponte? Como superar o medo da acusação incessante de “eterno colonizador” para aprender com eles e estabelecer esta conexão?  

 

Agora falo eu, podemos até não conhecer a fundo, mas existem movimentos tímidos em prol da criação destas pontes, existem muitos mitos e também muitas acusações, algumas justas, outras infundadas, por exemplo, em torno da banalização da medicina indígena, como o uso da Ayahuasca e outras sabedorias. Mas o fato é que parece bem questionável sabermos o que é que se respeita ou desrespeita se não contatarmos genuinamente, se não ouvirmos ou experienciarmos algo que nos dê real referência do que se fala. Para mim, durante os poucos dias durante os quais vivi com índios Huni Kuins em Ubatuba, num retiro de carnaval, me proporcionaram “conversas” silenciosas que jamais me esquecerei, diálogos que ainda reverberam em mim por meio de suas músicas, presença, reza e seus olhares, dos quais nenhum livro ou pesquisador jamais poderia ter me dito ou convencido, pois a experiência dialogou diretamente com camadas internas do meu ser que nem eu sei ainda “nomear”,  quanto mais elucubrar. Estes diálogos silenciosos e potentes, eu pude vivenciar mesmo sem estar sob o efeito de qualquer erva. Talvez, como uma das bailarinas presentes nesta última palestra observou, a nossa ponte com os povos indígenas, esteja "em" nosso próprio corpo. Porém, ao meu ver, a dança - talvez a mais potente linguagem do corpo - subtende entrega e experimentação, muitas vezes antes de saber ou compreender totalmente o que se dança! Descobre-se fazendo. Com muitas certezas prévias e linhas divisórias, defensivas ou protetoras, não há conexão real, não consigo ver comunhão que dance sobre o medo, receio e culpa, mas sim mais observação alheia e mais classificações que diferenciam, rotulam, afastam... Com medo não se dança, não se fecha os olhos. Não se entrega à dança ou ao diálogo, quem tem medo de ser acusado de novo colonizador ou quem tem medo de sofrer novos “estupros”. Guiados sob os desenhos velhos dos muros que se intervêm entre nós, não habitamos o mesmo espaço, ainda que vivamos lado a lado. Mas efetivamos a disputa e a separação, uma ilusão que fere e reduz potência, reduz encontro alegre... Talvez, com a efemeridade sensível, fluente e criativa, a organicidade e o desprendimento da dança que imita a vida - não a que imita as máquinas -  possamos aprender a dançar entre o paradoxo do novo e do velho mundo, o paradoxo de viver só em bando...

 

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Talvez as fotos abaixo comuniquem "um pouquinho" do que eu não acho palavras para descrever, mas meu corpo ainda sente bem numa espécie de dança interna...

 

 

 

 

 Isarewe Huni Kuin e Txana Ikakuru 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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