© 2016 Roni Diniz . Ator, Fotógrafo e Designer Gráfico.

Introdução do Blog

Automutilações (Poema)

24 Feb 2017

 

Tédio de você que só reconhece a cópia do belo e o virtuosismo como arte
E ainda brada como se fosse o júri que sentencia o herege ao inferno ou ao paraíso.
Perdemo-nos em divagações sobre o status, lucro e prejuízo das coisas e desaprendemos a capacidade de saborear, insossos que nos tornamos....
Preguiça de você que ainda usa adjetivo feminino ou homoafetivo como deboche ao que realmente te afeta, por medo.
E assim se sente mais macho numa pose patética de feroz caçador (a) de borboletas.
Perdeu as entrelinhas, os vãos convidativos, as metáforas e os surrealismos da obra,
Da vida e da sua própria história e essência...
Alimenta uma expectativa insaciável de ver o outro proclamar um dia o que você covardemente hesitou em dizer e o recrimina por suas "faltas",
Que desânimo de alimentar essa conversa na qual você dedica toda sua força e ódio
Ao que diz não ser digno do seu interesse e conhecimento. Percebe a contradição?
Tédio de você que fez toda a defesa sem vestir a causa e ainda tem plateia,
Que comprou parcelado no cartão de crédito o título de rico, sábio, feliz, popular e técnico,
Que se enoja com a própria imagem no espelho e o estraçalha ao chão como se esta fosse a do outro.
Preguiça de você que emite os votos, mas nem sabe que festa é essa,
De você que olha torto para tentar camuflar o seu desejo em vão.
Você que vê tudo pela brecha, mas não questiona as estatísticas.
Que ama os gráficos, mas despreza os contextos.
Desânimo de você que pede água, mas vem de copo cheio.
Quer prazer sem entrega, ápice sem escalada...
Chora em silêncio, mas ri da lágrima alheia.
Marca presença, mas só oferece a casca.
Nunca veio, mas se diz saudoso e amante.
Quer revolução, mas nunca mudou a si mesmo. Esqueceu de se reinventar e de experimentar.
Tédio, preguiça e desânimo de ouvir e ler tanto, mesmo sem querer,
De quem não se propôs ao experimento de corpo e alma e martiriza o sábio errante.
Ainda assim eu te agradeço e te dedico meu tempo e este poema, pois é principalmente para você
Que faz mais sentido todo esse gesto suicida de criar e propor o reencaixe das formas como um convite silencioso,
Desde as inevitáveis mutilações e brechas resultantes do risco e vulnerabilidade de insistir em existir e sentir.

 

Não se existe só, não se omite só, não se faz arte só.

 

Roni Diniz
22/02/2017
PS: A foto não é montagem.

 


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