© 2016 Roni Diniz . Ator, Fotógrafo e Designer Gráfico.

Introdução do Blog

O Choro, performance (Diário de Bordo)

 

 

Ainda em casa, depois de um incidente com a porta do meu quarto que se trancou sozinha (?), corro para tomar banho, confiro tudo, câmeras, acessórios, lentes, elementos cênicos, roupa: três grandes volumes para eu carregar pelas linhas de metrô e trem até à Av. Paulista: linhas Lilás, Esmeralda e Amarela, sendo o pufe branco e quadrado o pior dos volumes. Durante o trajeto, muitas crianças, nos trens, nos colos, e agarradas pela mão, sorrisos, olhares distraídos e sonhadores, choros e falatórios... Me atrasei, o trem demorou muito mais que o normal, é feriado, chego meia hora depois do que o programada. Decido atrasar 10 min o início da performance. Me encontro com a Simone em frente ao Shopping “Center 3”, opto por permanecer neste local, devido à uma espécie de intuição e à presença de cantores em frente ao Conj. Nacional, usando amplificadores. Estabelecemos o lugar exato da ação, repasso rapidamente com ela o sutil roteiro, os comandos da câmera e posição do tripé, ângulo da filmagem, etc. Os seguranças do shopping se aproximam e nos advertem: “Não pode filmar na calçada do shopping!”. Eu arrasto o tripé por uma distância de uns 10cm e respondo: “Mas na rua pode né?”...

 

Me dirijo ao banheiro do shopping, faço os últimos ajustes na roupa e no cabelo para tentar evitar ter o rosto desnecessariamente coberto, dois palhaços se maquiando por lá ao meu lado e trás. Encontro um conhecido meu da mesma academia que frequento, convido-o para assistir à performance com uma breve sinopse, mas, ansioso, me despeço rapidamente. Uma das “arriatas” do cós da calça está arrebentada e a Simone me ajuda a costurá-la. Faço um rápido alongamento, sento-me para meditar durante 5 min antes de começar, de olhos fechados, percebo que minha presença altera algo no lugar, e logo ouço alguém perguntar algo sobre mim, volto a me concentrar, passado o tempo, contraio toda a musculatura do corpo e relaxo. Vai começar...

 

Me afasto uns 20 passos, peço licença numa tenda de bikes, e no carpete do chão, monto o bebê com a manta branca, escrita #OCHORO e dentro, a bandeira brasileira abrigada, me dirijo até uma senhora numa das banquinhas de comerciantes: “A senhora é mãe?”, ela me responde prontamente: "não", com ar de astúcia me diz: “O que você está vendendo?”

Eu: “Nada. Só queria que a senhora me dissesse se isto está parecendo com um bebê!”

Ela: “Não é um bebê?” (olha atentamente) “Está vazio?”

Eu: “Está com “todas” as crianças do país...” (mostro sorrindo)

Ela: “Ahh! É uma bandeira!” (sorri de volta, ajeitando a manta nos meus braços) “Por que isso?”

Eu: “É uma performance artística! Você pode assistir daqui, já vou começar. Muito obrigado!”

 

Eu a deixo, respiro bem fundo, retomo a sensação do peso, calor, cuidado e o amor que sinto por aquele bebê simbólico e me dirijo ao local, me sento, sem muito ajuste no pufe, ajeito apenas a manta em meus braços, fecho os olhos e lentamente começo a me conectar com a “frequência” de sensibilidade e concentração, a qual tenho pesquisado nos experimentos da dança-performance ”Permeável”. Mas agora não estou sozinho. Sob uma dilatação sensorial de conexão com este bebê, eu não ignoro o movimento externo e as passagens dos transeuntes nesta Paulista reservada aos pedestres, tarde quente e dourada.

De olhos fechados, percorrendo as tensões e os estados do meu corpo, mantenho o fluxo respiratório cíclico e abundante, tento dissolver qualquer estresse anterior que ainda permaneça. O calor do “bebê” junto ao meu peitoral, rapidamente começa a me despertar afetos e instinto de proteção, além de um medo de falhar em protegê-lo.

 

Ao abrir os olhos e permanecer com o foco interno aceso, me conecto ainda mais de forma instintiva com o exterior e me mantenho assim conectado por meio da visão periférica, audição e outras sensações...

Então, pouco a pouco, os dois mundos começam a transbordar seus limites, entre lembranças da criança que fui, da que abracei um dia num sonho, das que caminham a minha volta hoje e do muito que elas me convidam a perceber. Às vezes, estas crianças passantes são muito mais curiosas e atentas à minha presença do que seus apressados e distraídos pais que as arrancam de um diálogo pelas mãos. Meu choro brota e se esvai sem alardes, como quem dança uma música tão irresistível e misteriosa quanto dolorosa que talvez poucos possam e queiram ouvir, sem me forçar ou me prolongar, sigo sentindo os olhos se transbordarem e esvaziarem repetidamente entre intervalos irregulares...

 

Meus olhos Incomodados pelo vento, agora mais frio e ferino e por fios de cabelos dançantes, são orquestrados por um derramamento interno, entre ventre e testa, maremotos no estômago e engolidas secas. Insisto em acomodá-los ao ciclo respiratório. As costas doem e percebo a ativação abdominal cada vez mais solicitada por uma leve inclinação do chão que me sustenta. Relaxo os ombros e ganho espaço na cervical enquanto permaneço sentado naquele estado.

Numa percepção de quase metade dos 40min, firmo os pés no chão. Devagar, começo a me desprender do filho, a dor é cortante e me controlo para não soluçar, enquanto minha respiração dá sinais impetuosos de descompassos e trancos violentos. Que futuro o aguarda neste mundo violento? “Constante e penetrante no vazio” é o seu afastamento do meu peito que agora se esfria lentamente. Que mundo ele encontrará? Eu sonhei com coisas pra ele tão superiores às que encontrei e isto dói. Deixá-lo assim, como um protesto sob os olhares de todos, alguns que se alinham, durante alguns minutos atrás da câmera que me registra, uns 4 m a minha frente e aos lados. Outros que passam e torcem o pescoço, pois não podem parar de andar, afinal, pode ser isso só mais uma ação de marketing e pedido de contribuições? De um jeito ou de outro, eles pintam este quadro que estou propondo com tintas vivas. Muitas, muitas pessoas paralisam-se, visivelmente receando atrapalhar uma filmagem ou, talvez, pedindo inconscientemente algum pretexto para ficar mais um pouco ali? Tempo que não se dão para "perderem" assim? Mas a Simone os autoriza a passarem com um gesto preciso e não lhes restam dúvidas de seguirem seus rumos. Alguns param exatamente na frente da câmera, mesmo notando a presença de pessoas que assistem o "invisível".

 

Eu estou desembrulhando lentamente o bebê,  a bandeira verde e amarela reluz, estou arrasado e me sinto cruel. Uma mulher para bem na minha frente e aparentemente desesperada me pergunta insistente:

“Mas o que é que está acontecendo aqui?”

 

E fica, me olha nos olhos, eu a noto e acolho energeticamente, mas deixo meu silêncio como resposta, eu sigo no meu choro mudo, neste "lugar paralelo". A manta branca cai da minha mão. A mulher permanece alerta por mais uns segundos em silêncio e segue... A bandeira permanece caída sobre uma das minhas mãos, como uma criança que ainda confia em mim e me segura a mão, enquanto o vento a chama. Eis o nosso filho! Aquele cujas características feias a mãe acusa o pai e o pai acusa a mãe (risos). Ele que nos choca repentinamente com o devaneio de acharmos que estamos frente a uma fotografia nossa antiga de quando criança, mas não é você nem eu. O filho que nos envergonha  quando nos acusa ao repetir com naturalidade algo “feio” que fizemos num momento que achávamos não estar sendo visto e arrogantemente o repreendemos: “Aonde foi que você aprendeu isso moleque?” É ele que tentamos moldar com a mesma "perfeição" inalcançável que aprendemos que deveríamos ter, mas não fomos capazes de alcançar. Ele que nos envergonha em público ao meter a mão em nossa cara, ironicamente, fazendo os outros julgarem que nunca apanhou.

 

Vou cessando meu choro enquanto a bandeira cai ao relento. Percebo que meu afeto não vence e mesmo assim não sou capaz de desistir. Mas tenho que acreditar nele e deixá-lo seguir adiante, ao seu próprio rumo escolhido ou a esmo. Permaneço um tempo com sua lembrança entre minhas mãos vazias e a certeza falsa de que sempre estarei aqui quando ele precisar. Me levanto, pauso, e volto andando de mãos vazias pro lugar de onde vim. Deixo o "vazio", nesta avenida que parece ter um holofote,  deixo a manta branca caída ao chão e a bandeira verde e amarela ao seu lado, querendo partir junto com o vento frio e  com esta tarde, agora cinza, que se despede...

 

Saio andando, encosto numa parede, misturado aos transeuntes, me demoro ali. Vejo a Simone recolhendo os objetos cênicos conforme o combinado, ainda atônito, eu seco as lágrimas, solto a camisa de dentro das calças, alongo o corpo inteiro e volto. Grato, abraço a Simone e a Sol que chegou a tempo de acompanhar os minutos finais e me alegrei muito com a presença delas como que trocando a chave de tudo o que aconteceu.

 

Um rapaz se aproxima, pergunta qual era a mensagem da obra, ao que e eu lhe pergunto o que ele leu. Ele nos diz que leu como um protesto à atual situação política na questão da educação e queria saber mais sobre o projeto. Falei do poema ao qual o QR-code impresso no pufe branco direciona e que completa a obra, acrescento que este tipo de obra tem a intenção principal de ser completada com significado individual que cada pessoa lhe confere e como recebe os símbolos... Ele acrescenta que esta é a sua primeira vez na avenida Paulista, que é artista viajante, quando noto uma flauta de bambu em suas mãos e me lembro da música que ouvi algumas vezes durante a performance e lhe revelo, ele me diz:

 

“Era uma música que eu compus, mas depois descobri que tinha muito em comum com uma cantiga celta que se chama “baixinho" e é considerada infantil, por isso escolhi tocá-la hoje...”

 

12 de outubro de 2016.

 

#oChoro: http://www.ronidiniz.com.br/o-choro-performance

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O choro

 

Eu choro a criança violada

Moralmente, física, emocional ou social,

A criança passado e a criança futuro.

Choro a criança precoce,

Digitalmente “adultizada”, sexualizada e “curtida”,

Choro a crônica indiferença paterna e a infância usurpada,

Choro o adulto mutilado que a traz no íntimo...

Numa birra, num olhar indiferente ou sádico.

Choro o bebê que tem que “merecer” o amor ao qual tem direito

Só por existir!

Choro a criança que "é" um fardo ou só mais uma boca a ser alimentada,

Choro o despreparo de pais irresponsáveis e teimosos e seus avós arrependidos,

Choro a dor desta criança que ainda nem sabe que a sente

E no seu grito estridente por leite que nunca vence, adormece...

Choro a covarde negação à natureza paterna e materna,

Choro a culpa e o perdão, choro pela cura e aceitação!

Choro, mesmo que em vão, pelo filho que terei e pelo que fui,

Choro a dor de ser pai e filho de um país displicente e superficial,

Choro frente ao soterramento dos instintos e direitos desta criança,

Sob nossa pressa, hipocrisia, arrogância e alienação política e humana,

Sob brinquedos plásticos, games, metas, regras e permissividades...

Choro pela violência de TER que vencer, corresponder e ser bom ou ”normal”

Só para ter o seu e o meu amor-próprio...

Choro pela desorientação omissa dos seus limites e transbordamentos,

Choro pela promessa não cumprida, pela bronca demasiado seca,

Pelo exemplo não correspondido, pelo acolhimento negado,

Pelo diálogo negligenciado e por não poder chorar,

Choro com a doença para ter o teu afeto, a fingida ou a aguda e mortal,

Choro em teus braços soluçando, batendo a porta ao sair ou sendo um filho perfeito

E em silêncio mortal, no veneno cancerígeno que circula em teu sangue,

Choro com rebeldia, gritos ou suicídio por tua atenção,

Choro, porque  ainda insistimos em olhá-las de cima pra baixo e não pra dentro!

E choramos em coro, sem lágrimas, derramando vingança inconsciente em nossos filhos,

Repetindo os teus golpes de indiferença e raiva ou excessos de melindre e controle.

Choro pelos órfãos de pais roubados pela violência, vaidades, preconceitos e “religiões”,

Pragmatismos políticos, culturais, étnicos e de gênero.

Choro rindo sobre a fantasia que você cria para me entreter

Enquanto me empurra seu remédio amargo e caro e me abandona de novo...

Roni Diniz 04/10/16

 

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