© 2016 Roni Diniz . Ator, Fotógrafo e Designer Gráfico.

Introdução do Blog

A presença energética do artista - Laura Pausini

 

 

 

Minha "tietagem" não tem fim, verdade! (Risos) Mas deixei um pouco o lado de fã - só um pouco - para analisar artisticamente o atual ícone mundial da música italiana - Laura Pausini - e assim acabei relembrando alguns conceitos preciosos do Lume Teatro. Uma das regras dos meus posts aqui é registrar livremente as questões ou reflexões em torno das experiências que eu vivencio e que são pautas das minhas conversas hoje... Além da euforia de um fã normal (não tão normal rsrs), ter estado presente nestes shows da Laura Pausini, dias 11 e 12, me despertou várias reflexões em torno da presença energética do artista, é um tema que faz parte dos meus interesses e buscas enquanto ator e performer, algo que pude esboçar em alguns trabalhos de dança e na peça #SomosTodosOtelo (2015). Pude "observar" bem como isto se desencadeia ao vivo e enquanto escrevia este relato, relembrei do show e de como os símbolos conscientemente escolhidos ou os "natos" são transmitidos e se reverberam...

 

No início deste ano participei de alguns encontros com atores do renomado Lume Teatro, grupo de teatro de pesquisa sediado na UniCamp e que é referência nacional. Em uma das palestras intitulada “Presença Radical”, o ator e professor Renato Ferracini discorreu sobre como este quesito apareceu na pesquisa do Lume desde sua fundação, há mais de 30 anos (isso! o grupo já tem mais de 30 anos!), relembrou de quando Burnier (fundador) ficou impressionado com a presença cênica de um mímico (Etienne Decroux) comparando-o a um leão em cena. O Lume (o nome significa "luz") tem se desafiado a trabalhar esta força/energia da presença antes da técnica (já desenvolveram várias pesquisas com este fim, em torno das danças populares nordestinas ou de técnicas orientais como o Butô). Na época desta palestra, o Renato estava em cartaz com o trabalho “Dissolva-se-me” que fugia totalmente do conceito de “espetáculo” convencional, praticamente uma aula ao vivo, escrevendo, reescrevendo e borrando, através da experiência, as fronteiras entre teatro, performance, dança, entre artista e público, entre louco e são, entre eu e o outro, bem na nossa frente, olho-no-olho, ombro-a-ombro, como sugere o acertado nome desta obra: Dissolva-se-me! Embasado por uma pesquisa em torno da esquizofrenia e conceitos filosóficos de Espinoza, trazia à tona na palestra, questões como o desafio de entender a lógica do outro, de entender o corpo como o que “sou” e não o que “tenho”, como a nossa atual definição de identidade que se dá por função ou contexto é limitada. Quando nos perguntam quem somos, estamos acostumados a responder com um currículo em torno do que fazemos e de onde viemos, isto não define o eu! Não raro, chamamos de loucura aquilo que não conseguimos entender no outro (a lógica do outro), geralmente, porque teimamos em nos defender de tudo que PARECE colocar em cheque nossas pré-definições ou “aquela velha opinião formada sobre tudo” dolorida e cômoda que, em detrimento do conforto superficial que pode nos trazer, se choca com a compreensão da diversidade e complexidade dos corpos que somos e reinventamos a todo tempo, formamos e desformamos a todo instante... São conceitos difíceis de se entender de pronto, confesso, pois mexem diretamente com a lógica difundida de se entender o mundo, sobre a qual quase tudo está construído, unicamente tendo o homem como a medida. No fim, a conclusão dos conceitos é que a potencialização da presença energética do performer (Ator, Dançarino ou Cantor) se expande quando é estabelecida a(s) relação(ões), e estas relações constroem um corpo-experiência! Uma rede de afetamentos, “me afeto e sou afetado”, relação de troca. A relação que potencializa a presença energética pode ser com o outro que está logo a minha frente ou com o universo, assim percebemos e lidamos com novos “corpos” a todo o tempo, assim também funciona nosso corpo físico composto de órgãos que se parecem com uma orquestra ao executarem o “espetáculo” de nossa existência. O homem em relação ao meio no qual vive, seja o social, o meio ambiente ou o mundo oculto das frequências energéticas... O órgão está sempre em relação ao outro ou outros, nunca predominantemente à si mesmo.

 

“Somos um conjunto de partes que define quem somos.” “Um corpo se define por suas relações.”

Lembrei-me de tudo isso, para em fim, pôr uma luz, uma das possíveis, sobre a minha compreensão em torno da PODEROSA presença energética da Laura Pausini “em cena”, na casa de show para sete mil pessoas, ou na passagem de som para menos de 100 pessoas! O corpo que se forma em torno do artista, orquestrado pelo que este artista representa ou propõe (fator de atração, não me refiro à fama e beleza, embora ela tenha as duas, o exemplo poderia ser com um artista menos popular, mas com semelhante presença potente), desperta uma certa dança de afetamentos. Quando estes vínculos se rompem ou se transformam, o “corpo” se dissolve para montar novos corpos...

 

Dar-se conta desta potência energética e explorá-la é uma máxima indispensável na performance e no teatro de pesquisa, existem muitas maneiras e técnicas de buscar isso, mas nem todo artista se dá conta e utiliza isso a seu favor, ou da sua obra, muitas vezes cegado pelo ego, busca de aceitação ou as inseguranças decorrentes de estar em evidência e exposição; motivações mais comerciais do que artísticas que resultam numa pressão esterilizadora desta potencialização e de um estabelecimento real das relações; busca de acalento para alguma frustração ou carência pessoal, não raro, motivadas pelo simples desejo muito humano de ser mais querido ou amado... Ao meu ver, estes são quesitos que podem desviar da construção desta relação, deste corpo e do caminho para alcançar esta presença potente.

 

A relevância do conceito de presença energética vai além do talento ou da destreza com a qual o artista executa o seu feito, seja interpretar, cantar, dançar ou simplesmente estar em cena... Tem artista que executa com qualidade sua técnica, mas com luz "ralentada". Não é a toa que se usa a metáfora “Luz” ou “Graça”! Muitas vezes chamamos “isto” de carisma, mas vai além, pois pode ser percebido mesmo quando a pessoa está calada e parada em cena, fruto de sua simples presença e como ela interfere ou modifica a frequência do lugar onde ela está - isso mesmo, podemos ver isso no mundo real, nas pessoas comuns.  Na vida, normalmente oscilamos, como uma música que tem sua estrutura básica que a torna reconhecível, mas é dotada de nuances e oitavas a cima ou abaixo. É como se este ser emitisse mesmo uma luz que atrai e magnetiza outros seres a comporem com ele um corpo-experiência que tende a se potencializar, à medida que as relações se aprofundam e se orquestram organicamente em estado de dilatação.

 

A Laura Pausini intensifica a própria "luz" natural à medida que, quase todo o tempo, conscientemente ou não, estabelece a relação com o outro. No show, seu foco não está exorbitantemente sobre si mesma ou na preocupação dedicada excessivamente sobre o que está fazendo, mas sim, voltado como um holofote ao seu público, as fãs convidadas por ela para cantarem seu hino “La Solitudine” no seu palco ou diretamente e, muitas vezes individualmente, a cada um da plateia, na medida do possível, dialogando, mesmo que rapidamente, gestualmente e energeticamente...

 

Mesmo durante os momentos nos quais não está executando sua principal “função”, como no dia 11 quando um problema com os cabos dos telões atrasou muito o início  do espetáculo, a cantora emitia sua luz “radiante” durante seus improvisos e conversas descontraídas com o público, como uma verdadeira "show woman". Em especial, durante um momento no qual ela aceita a proposta de uma fã de tocar o piano junto com ela, sua relação com a fã é um “corpo” dos mais atraentes e potentes da noite, digno de total identificação  e construção de rede de afetamentos. Esta é a cara da sua Turnê Simili aqui em São Paulo, no Citibank Hall!

 

Os Símbolos

 

 

 

Quem acompanha a carreira da Laura Pausini (no meu caso desde os meus 9 anos, pasmem, há mais de 20 anos,  risos) não tem dúvidas do quanto ela se tornou mais segura, mais ousada e potente desde que se tornou mãe! É algo facilmente perceptível em sua carreira e “experimentado” em um dos momentos mais sublimes do seu show, quando compartilha, numa atmosfera absolutamente íntima, sua dificuldade inicial para engravidar, o fracasso, a reverberação deste anseio em seu subconsciente por meio de um belo sonho que, por sua vez, se converteu em uma bela canção, e em fim, em sua experiência de concretizar seu maior sonho: apresentar à sua criança a beleza extasiante-azul-celeste de sua terra natal e desta existência material humana.  Vida > Sonho > Arte > Vidas > Sonhos>Arte. Esta nova relação a transformou e se traduz poeticamente em seu trabalho, se desvelando, por exemplo, neste doce e sublime momento do show, com toda uma estética, iluminação cênica, "figurinos" e atmosfera criada a serviço desta essência, na qual, o corpo plateia é irrigado de afeto incondicional-materno e este momento-experiência pulsa ritmado por aquele coração reluzente atrás de um piano e de um microfone. Até que ponto o símbolo, em sua potência, ao traduzir uma essência real e pessoal, torna-se também algo universal e vice-versa! Também coloca o outro em contato com algo dele, particular, porém análogo e tão simples quanto comum a tantos outros seres, tão diferentes e tão #Simili?

 

O álbum que dá nome à turnê é intitulado Simili (“Semelhantes” um sucesso estrondoso de aceitação entre a Crítica e os fãs, ironicamente, nem sempre tão receptivos às escolhas da Laura). Simili propõe esta relação humana imediatamente no título, nos símbolos e na sua essência manifesta a cada faixa, nas quais a cantora transita entre estilos e momentos distintos de maneira muito intuitiva e visceral, coerente com sua experiência de conhecer e se integrar naturalmente às tantas culturas diferentes pelo mundo no qual está sempre viajando com sua música. Convidando-nos a lembrar de como nos parecemos em nossas diferenças e não o contrário! Mostrando que posso perceber o quanto sou semelhante se me permitir ao mergulho na “lógica” do outro, ao passo que também me permitir vasculhar e entender a minha própria "música", também entenderei a do outro, mesmo que tenha acordes tão diferentes, transitando sob a frequência deste ou daquele outro sentimento.... Assim também é o show, passeando por seus 23 anos de carreira, fases da sua e das nossas vidas, a solidão, a amizade, o amor, a traição, a família, a espiritualidade, explosões de raiva, paixão, ternura ou fraternidade, a sensualidade e força da terra, o mar, a grama verde e os céus... “Não seria este o paraíso que tanto esperamos, bem na frente do nosso nariz?”

 

Com todas essas relações latentes faiscantes, ela finaliza a noite incentivando seus fãs - este corpo ofegante em volúpia emocional - a “transarem esta noite” (como repete a cada fim de show), talvez relembrando assim, o real significado do sexo: a total potencialização possível, quando unidos por respeito e amor, dois corpos entram na dança de se tornarem um, a exemplo do que acabou de acontecer ali, entre artista e público. Não existiria mesmo uma maneira melhor de tornar “tangível” ou materializar a grande motivação de toda esta obra-imaterial do que com uma chuva de trevos de quatro folhas verde-vibrante sobre nossas cabeças, sobre nosso caminho...

 

“Quando nascemos iniciamos nossa jornada em busca do amor. Os dias que nos são concedidos são aqueles que nos dão as nossas oportunidades e somos nós que criamos os nosso destino, abrindo as portas que são as nossas experiências. Portanto é aqui que eu quero viver em um lugar onde as portas são da mesma cor, mas por dentro, tem salas e histórias diferentes. Histórias que eu, esta noite, quero cantar para vocês. Esta noite não estamos sozinhos, estamos juntos e isto talvez não seja o verdadeiro paraíso? E isto talvez não nos torna semelhantes?” Laura Pausini

 

ATUALIZAÇÕES:

Vídeo no meu Canal: https://youtu.be/WXniF6jf-AQ

Texto sobre nova Palestra com o Renato Ferracini e outros: http://www.ronidiniz.com.br/single-post/2017/05/31/Nosso-mundo-%C3%A9-f%C3%A9rtil-%C3%A0s-uni%C3%B5es-que-ousem-conservar-as-singularidades-A-milit%C3%A2ncia-une-ou-segmenta

 

 

Aqui, para quem quiser saber mais sobre o Lume Teatro: www.lumeteatro.com.br/o-grupo/historia/luis-otavio-burnel

Pauta sobre o problema técnico e os improvisos da Laura Pausini: http://www.latinpopbrasil.com.br/colunas/habla-pri/laura-pausini-as-definicoes-de-perfeicao-foram-atualizadas-com-sucesso/

Balanço dos dois shows de Laura Pausini no Citibank Hall: http://mdpop.com.br/laura-pausini-conquista-sao-paulo-na-primeira-noite-de-show/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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