© 2016 Roni Diniz . Ator, Fotógrafo e Designer Gráfico.

Introdução do Blog

Dança para recobrar o ser permeável, anestesiado sob um mundo de cimento

 

 

Certa vez em 2014, ao receber um Reiki, fui indagado se eu tinha alguma queixa específica, revelei que costumava ter dificuldades com a ansiedade, ao que fui convidado a pensar no mar, “mesmo quando quieto, está sempre em movimento”. Fiquei com esta imagem que conheço bem. Daí eu pensei: Que dança é essa que não se adianta, não se embrutece e nem se mecaniza, sem plateia ou sob olhares, em prontidão, fagulhas vivas, dança convidativa que simplesmente é?

Logo na próxima vez que eu estive na praia, em fevereiro de 2015, minha paixão e ânsia por estar no mar foram naturalmente precedidas por preciosos minutos silenciosos de meditação e absorção, frente aquele espetáculo despretensioso que acontecia a minha frente. Enquanto eu me rendia àquela dança que, análoga ao estado ao qual me despertou, já movia algo em êxtase dentro de mim, internamente, eu ouvia um conselho de uma bailarina estrangeira dizendo-me, certo dia, numa descontraída conversa de olhos e palavras que burlavam barreiras linguísticas: “simplesmente dance!”.  Dançar para quê ou quem? Como? Quando? Sem edital? Naquele momento, na praia, dancei ou “me debati em rodopios toscos” e transferências de peso num ímpeto selvagem e dançante, reconheço hoje, em gratidão a algo desconhecido e potente que aquele corpo de água lembrou-me que vive dentro de mim...

 

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.”

 

Sou bem pouco conhecedor de Nietzsche (tá na lista), mas já me encontrei com esta frase tantas vezes e este me parece um conceito tão simples, revelador,  quanto as classificações que recaem à dança e quem a faz quando esta se faz em relação a uma “música desconhecida”... Que música “oculta” é esta que instiga o outro e nos faz julgá-lo louco? Esta é uma metáfora forte que nos convida a rever o pragmatismo “acimentado” com o qual lemos e impomos, às vezes, à qualquer “DANÇA” que não pareça obedecer alguma música com a qual estamos acostumados, ou sequer, nos dispomos a ouvir com nosso corpo ou alma enquanto assistimos. A música que impulsiona o outro pode ser você que o assiste, seu julgamento ou sua indiferença... Pode ser o universo ou a própria dor, alegria e dúvidas do intérprete-criador. Mas de fato, quem se presta a analisar a dança de longe, sem a experimentar, não necessariamente fisicamente, mas “dançando com as ideias e com as sensações”, está perdendo a “festa”... E eu já perdi algumas vezes, também me julgando louco, sem entender qual era a minha “música”.

 

O maior órgão do nosso corpo, a pele, é repleta de buracos “férteis” que acolheriam o mundo externo em sensações, luzes e ventos para gerar vida e intercâmbio contínuo de dentro para fora, de fora para dentro, não fosse a “roupa” que protege e organiza a sociedade, as funcionalidades que insistem em prevalecer sobre o ser. Mas certo astronauta ficou surpreso, quando, ao ver a Terra de cima, não viu abaixo as linhas do mapa, com as quais nosso olhar já está inconscientemente dividido. A pele é abafada como a terra silenciada pelo concreto no qual pisamos. O campo imaterial do subconsciente é domado com argamassa, bloco, crenças e propaganda... Sob os panos, pêlos encravados e inflamados, árvores crescendo na direção invertida e ferindo-nos, caroços, rancorosos cânceres e esquecimentos do solo que agora precisa de bloqueador para não sucumbir à luz do sol, o mesmo que se faz essencial à própria sobrevivência. Eu vejo este embrutecimento como consequência de muitas coisas, mas sobre tudo, a sobrevivência acirrada, que nos demanda postura defensiva, superficialidade e agilidade que a aceleração tecnológica nos demanda.

“Deus formou, pois, o homem do barro da terra...” Estou longe de querer discutir a origem da vida, convém malear esta imagem bíblica referida. Barro é terra permeada, entre 70 e 75% é a porcentagem de água que o nosso corpo é, água que flui através de espaços ocos que também nos compõem. Sim nossa matéria é intermeada de vazios e cargas energéticas que se deslocam num êxtase dançante, entre perdas e ganhos, homens ou mulheres são repletos de múltiplas vaginas e falos figurativos (empresto aqui uma analogia da Viviane Mosé) que se preenchem e se esvaziam, gerando vida e retroalimentação e, quando orgânico, vem o êxtase de existir e multiplicar a “vida”. Tente impermeabilizar esta terra e o que terá são mortos-vivos... Nada se compara a uma floresta majestosa que sabiamente se construiu ao seu próprio tempo e abriga riquezas, curas e recursos que jamais reproduziríamos com a mesma eficácia e com nosso excesso de controle...

 

“Você já deve ter ouvido falar dos benefícios da meditação. É um processo muito antigo que parte do princípio que todos nós temos uma imensa sabedoria em nosso interior, eu acredito que dentro de nós estão todas as respostas para todas as perguntas que desejaríamos fazer, infelizmente a maior parte do tempo estamos tão ocupados, correndo para atender as solicitações externas que nos esquecemos de parar e concentrar o suficiente para nos escutar.” Louise Hay

 

“Análogo às paisagens urbanas que o circundam, o homem moderno está cada vez mais asfaltado, “imune” ao toque do outro, e à vida presente. Protegido, focado, bloqueado, em muitas redes ao mesmo tempo, menos no lugar aonde habita o momento presente. O que nos impermeabiliza? O medo? O conhecimento? A ignorância? O preconceito? A pressa? A praticidade? A onipotência? A impotência? A expectativa? O orgulho? A liberdade? A sobrevivência?”

 

Permeável – Dança Performance.

 

É um “ritual” que aderi para minha vida há algum tempo para tentar me desembrutecer e agora experimento na forma de intervenção urbana em alguns momentos, como pesquisa e vivência.

 

“Durante 20 minutos, o performer se desafia a buscar estado meditativo, dilatações sensoriais e absorção ínfima do ambiente e das pessoas com quem se encontrar em plena agitação urbana ou em conexão com elementos da natureza. Em seguida, este universo de estímulos externos e internos ganham livre passagem pelo corpo, resultando numa espécie de dança-improviso e convite à experiência, cada vez mais rara, de simplesmente estar e acolher, com desprendimento, o agora, o habitar o próprio corpo e espaço,  sensível à presença do outro, rompendo despretensiosamente carapaças e asfaltos que cobrem nossas terras e peles ávidas por chuvas e sementes."

 

Hoje é o dia do Ator e eu "falando em dança?", pensei... Aí fui surpreendido por uma profunda frase dita pelo mítico diretor Antunes Filho:

 

“Performer é aquele ator ou artista que se torna agente de crise, visando quase sempre ao inédito para sensibilizar e transformar o humano, o social e o político arraigado.”

 

Vídeos Teletransmitidos: https://www.facebook.com/permeavel/

 

Café Filosófico - O que pode o corpo? Com a Bailarina Dani Lima e Viviane Mosé: https://www.youtube.com/watch?v=oE3aoW2xp4w

 

Flashes da minha dança feita para o mar: http://youtu.be/kbzx-9jtPF8

 

 

 

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