© 2016 Roni Diniz . Ator, Fotógrafo e Designer Gráfico.

Introdução do Blog

Intolerância na Arte?

 

“O que é arte?”,  “O que é artista?”, são perguntas que cedo ou tarde te circundam, seja você amador¹, profissional ou, não menos importante, apreciador! Neste momento em que ficam no ar tantas questões de intolerâncias quanto ao ponto de vista político, quanto à diversidade de gênero, étnica, social... Como a intolerância poderia aparecer na arte? Quase sempre associada à liberdade e auto-expressão... Alguns afirmam que todo ser humano é artista em algum aspecto... São questões perturbadoras para o artista que lida com o imaterial e no seu campo de atuação (bem distante do status organizado de um mercado na maioria dos casos) é instado a se definir constante e imediatamente perante um mundo, no qual “tudo” tem preço, utilidade, concorrência e uma prateleira na qual deva se encaixar para ser aceito ou pelo menos ter sua existência conhecida e “respeitada”...

 

Ao mesmo tempo, vive-se numa era do “volta que deu merda”, permeada de  aclamações ao caos, já que nossa evolução tecnológica, racional, comercial (já com tédio de usar a palavra “capitalista”), falhou e despontam, ou saltam como mola outrora presa, alguns impulsos anárquicos, outros primitivos, outros agnósticos análogos à falida figura difundida de “Deus”, vista por alguns como  um fator designador dos fracassos ideológicos que permeiam nosso sistema. Há os que buscam “cientificamente” propor novos códigos para falar do mistério por trás destas esferas invisíveis, repensar ou reorganizar os elementos básicos das linguagens e suas definições a fim de contemplar estas esferas, mas não muito raro, ficam falando sozinhos ou em panelas... Como foi a realidade que muitos dos grandes pioneiros na arte e na ciência viveram um dia.

 

Tudo isso e mais um monte de indagações podem ser lidas, entrelaçadas propositalmente ou indiretamente nos “produtos” culturais da nossa era e nas classificações e desclassificações conceituais, desde o “tranquilo e favorável” ao “dedo no cu” performático, desde as peças artesanais indígenas, levadas às galerias ou reproduzidas em grande escala e vendidas nas lojas, ao “não-espetáculo”, ao “isto é teatro?”, ao “isto é dança?”, ao “meu sobrinho consegue fazer isso!”...  Claro que, como em todo ofício, existem bons e maus resultados, na arte não poderia ser diferente, resultados questionáveis que não vão para a cena, que são amassados e lançados ao cesto de lixo, alguns que vão à cena, quando há cena, com ou sem um propósito e muitos que são rechaçados pragmaticamente por não seguirem as receitas, mas respeitados e venerados alguns anos ou décadas depois ou não. Ocorre que, às vezes, falamos de arte, artista e até de gente, como se fossem sabores de sorvete que gostamos mais ou menos ou como verões de Cristo ou Maomé “ditadores”... Mais relevante ainda, o fato de que uma grande maioria da população, "público potencial", nem entra nesta discussão, ou entra reproduzindo discursos (como se eu também não reproduzisse alguns “in” e conscientemente agora), que assiste no máximo a uma peça por ano ou década, que escolhem para a sala, simplesmente o quadro que tem na sua paleta a mesma cor da cortina ou do sofá, por que não? E está tudo bem assim...

 

É neste cenário fértil para o mercado farmacêutico, terapêutico, de identidades enlatadas, e do entretenimento alienatório e anestésico que o diálogo vai se perdendo, que o incômodo gostoso das incertezas que geravam busca de repertório ou aprofundamentos, vai dando lugar ao automatismo e pragmatismo irreflexivo, estes que já imperam nos outros campos da nossa era, mencionados no início do texto. É cada vez mais cômodo ficar numa zona onde alguma solução classificatória chape imediatamente o que não faz parte da nossa trajetória em um rótulo, sempre a mão para trazer de volta o “conforto” de ter as respostas. É um movimento matriz que se leva para as relações, para as compras (e aí o império das marcas e outros ditadores de tendências lucram), para a “apreciação” de qualquer manifestação artística que tende a perder sua potência provocadora, uma vez que a rotulação exacerbada produz repulsa imediata ou reafirma sua aprovação gratuita, sem o desejado movimento vivo de “afetamento“, “se sentir tocado” ou “incomodado” (não no sentido ranzinza da palavra) que um dia foi atribuído como sendo a recompensa de uma boa obra de arte, contribuindo assim para um ciclo desigual de: 1) “Mais do mesmo”, 2) Marginalização do diferente, 3) Desincentivo à ampliação de repertório e das possibilidades de auto-expressão...

 

O que dizer então, quando a intolerância já parte dos próprios artistas? Daqueles que naturalmente trariam, intrinsecamente em si, o movimento criador, inquieto e insatisfeito em busca do novo; e os sentidos aguçados e receptivos, potencializados pelo processo de viver na arte?

 

Entre os extremos de sugerir que uma obra de arte não pode ser criticada ou questionada, se sua acessibilidade é livre ou não, até que ponto deveria, se pode ser resumida em rasa “ruptura pela ruptura”, ou “devaneios em torno do próprio umbigo” (como se houvesse uma Bíblia que regesse o que deve ou não ser tema de pesquisa... ou se todo o “sucesso” pudesse ser medido por bilheteria e repercussão ou pela falta disso) há de se reconhecer que as obras de arte, os próprios artistas e seus processos podem ou não ser compostos de muitas camadas, entremeios sutis, ressignificações, riscos, indagações, experimentos, autodescoberta e transições, lampejos... Esta realidade complexa (caminho comum aos ofícios que se esmeram e se aprimoram, mesmo que resultem num retorno à simplicidade e ao bruto) não poderia ser privilégio único do artista que critica severamente, mas que por estar acostumado com próprios códigos em suas obras ou restrito aos clássicos, torce o nariz ao diferente, não se propõe ao diálogo, reafirmando uma militância conservadora tão pouco autocrítica...

 

Tente não rir alto com alguns dos significados de “artista” do dicionário online mais acessado do Brasil:

 

ar·te: latim ars, artis, maneira de ser ou agir, conduta, habilidade, ciência, talento, ofício

ar·tis·ta (substantivo de dois gêneros)

1. Pessoa que pratica uma das belas-artes, especialmente uma das artes plásticas ou dos seus prolongamentos atuais.

2. Pessoa que interpreta uma obra musical, teatral, cinematográfica, coreográfica.

3. Pessoa que, dedicando-se a uma arte, se liberta das pressões burguesas.

4. Que tem ou exprime o sentimento da arte.

5. Que ama as artes, que tem gosto artístico, sentimento do belo.

6. [Figurado]  Manhoso, finório.

7. Impostor.

Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/DLPO/artista [consultado em 06-05-2016].

 

É fácil imaginar o quadro seguinte, se é que já não se tenha presenciado isso em alguma situação, menos grave, tomara! Um grupo de médicos oriundos de especialidades distintas, discutindo exaustivamente um mesmo problema sob seus pontos de vista diferentes, seus estudos intensivos, para o qual dedicaram suas vidas, cada qual afirmando categoricamente o procedimento ideal para salvar o paciente (seja com ou sem orgulho e ego), mas que difere do outro e do outro, e que ironicamente somente pode ser ministrado em equipe. Até que o paciente falece em suas mãos e no único lugar onde acreditava ter alguma chance de sobreviver.  Acrescente ao quadro, alguém que chega à cena e, mesmo sem nenhum conhecimento em medicina, percebe que um dos aparelhos está desligado, salvando a vida do paciente. Pode ser chamado de herói e até de mais competente do que os médicos formados, mas você chamaria este para fazer a sua cirurgia? Chamaria os outros?  Acrescente à cena, um dos médicos com empatia pelos outros, ouve os argumentos colocados por toda a equipe, consegue pensar a complexidade geral do corpo humano, passando por todos os pontos de vista, no entanto sem extremismos, relaciona-os e descobre facilmente como salvar aquela vida por que foi capaz dialogar com todos os pontos de vista mais difíceis, relacioná-los e descobriu uma visão mais ampla e abrangente... (buscar "Os cegos e o elefante")

 

A história da arte escancara uma sequência de movimentos artísticos com características "contrárias" umas das outras, mas observa-se também que muitos movimentos partiram justamente do seu “oposto”, que alguns se contaminam na fase de transição, alguns apresentam a própria coexistência dos elementos contraditórios como característica marcante. Movimentos fortes que atingem um ápice absurdo e no fim retornam aos elementos básicos da arte da Grécia Antiga, África, China... Movimentos pioneiros e marcantes que em primeira instância causaram escândalos de rejeições massivas... Com certeza, muitos vieram à sua mente neste instante, talvez a própria atividade que você exerce, já descobriu a origem e trajetória dela? Isto faz alguma diferença?

 

É clichê inevitável dizer que a escola convencional falhou ao permitir ou sublinhar na mente das crianças “sem luz” (aluno), que a arte se resume ao belo, ao virtuosismo, símbolo de algum tipo de status... Falhou ordenando-os (nos) a copiarem com precisão um trecho da pintura e não investindo tempo e recursos para discutir e, por que não, experimentar as abordagens de Pablo Picasso ao estilhaçar o vaso e a figura feminina entre outros? Descobrirem quais relações e diálogos podem ser percebidos com a sua realidade atual e a quais movimentos o artista convida ou provoca na sua linguagem e na diversidade de linguagens... Mas este discurso você também já ouviu e é mais do mesmo! E o que não é?

 

Já em sua época, Shakespeare "parodiava" lindamente a inflexibilidade de seu público, cuja imaginação é apontada, diversas vezes em suas obras, como ingrediente requerido de um público ativo, indispensável para que ocorra o diálogo (ou se estabeleça a convenção) com os apreciadores arrogantes de seu meta-teatro cômico-trágico em “Sonho de Uma Noite de Verão”.  Na cena o grupo de artesãos atrapalhados tem em fim a oportunidade de apresentar sua peça perante o recém-casado duque Teseu. Shakespeare provoca o seu próprio público, de forma inteligente e sutil, exibindo na cena, elementos cênicos simbólicos quase que óbvios que são usados pelas personagens atores  (toda esta peça já foi apontada por alguns críticos como feixes precoces do Surrealismo e do Simbolismo – ver Jan Kott) e apresenta-nos uma sequência de equívocos ridículos advindos da expectativa do público em busca de um “realismo” rígido, indisposto a mostrar abertura para os códigos não tão convencionais apresentados.

 

Luar (personagem ator em cena representando o Luar): Representa esta lanterna, as guampas da lua crescente; quanto a mim, parece que sou o Homem da Lua.

Teseu (duque): Esse é o maior erro dentre todos os outros; o homem devia estar dentro da lanterna. Desse jeito como pode ser ele o Homem da Lua?

Demétrio (nobre): Ele não se atreve a entrar ali por causa da vela; como pode-se ver, milorde, ele já está com o pavio curto.

Hipólita (duquesa): Já estou enfarada desta lua. Gostaria que ela mudasse!

Teseu: Parece que dada sua pouca luz de discernimento, ele está minguando. Mas, por uma questão de cortesia, nada mais razoável que fiquemos até o fim.

Lisandro: Prossiga, Lua.

Luar: Tudo o que eu tenho a dizer é dizer aos senhores que a lanterna é a lua; eu, o Homem da Lua; Este espinheiro, meu espinheiro; e este cachorro, meu cachorro.

Demétrio: Ora, tudo isto deveria estar na Lanterna, porque tudo isso está na lua. Mas, silêncio: vem chegando Tisbe.

 

Sem falar que a peça revela os bastidores do teatro como cena (hoje não é mais novidade, mas Shakespeare foi exímio), “celebra” os “erros e fiascos” como interessantes e material rico na cena, exalta a simplicidade, subvertendo ironicamente um monte de convenções e expectativas em torno do teatro e por que não dizer, da arte em geral?

 

“Nosso divertimento será ver a fortuna que há no infortúnio deles. E aquilo que o pobre esforço não conseguir, o nobre respeito fará, percebendo a força da encenação, e não o seu mérito. Por lugares onde andei (ou porque não “peças que eu assisti”) grandes eruditos quiseram receber-me com premeditadas boas-vindas; eu os vi tremer, empalidecer, fazer pausas indevidas no meio de suas frases; eu os vi engasgar de nervosos no meio de seus discursos decorados. Ao concluírem, param de falar como se parvos fossem, e ficam sem me dar as boas-vindas. Acredite-me querida, desses silêncios, ainda assim peguei os votos de boas-vindas. E, nessas nervosas perturbações, causadas pelo senso do dever, consigo ler tudo quanto me dizem as línguas tagarelas, de eloquência esperta e arrojada. Assim é que , no meu entender, têm língua amarrada o amor e a simplicidade: quanto menos falam, mais dizem.”

 

PS: Tive o prazer imenso de deliciar este texto de 2014-15 na Cia Paidéia, interpretando com o Núcleo de Vivencia Teatral e direção do Amauri Falseti.

Sonho de Uma Noite de Verão – William Shakespeare, Trad. Beatriz Viégas-Faria, L&PM Pocket.

 

¹Amador:  do Latim AMARE, “amar, gostar de”, o amador, por definição, escolhe determinada atividade

por amor.

 

Link relacionado novo atualizado em 13/08/2016, LEANDRO KARNAL - "A ideia da tolerância é vista como submissão" : https://www.youtube.com/watch?v=9b3g6nzchiA

 

 

 

 

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