Arte Atômica e a IV Performance Pietá

Atualizado: Abr 29


A #performancePieta é como um mantra, de tanto repetir cada parte com consciência e presença, por cerca de uma hora cada ação (fotos da quarta ação em 30/07/19), entre mãe e filho, interno e externo, morte e vida, humano e divino, #CristoeMaria, homem e mulher, Yin e Yang, sagrado e banal, pai e filha, INspiração e EXpiração, céu e terra, quem chega, quem recebe, quem vai e quem fica...

Sinto que quase tocamos ou passamos por um "lugar" ou estado que, curiosamente, é tudo ao mesmo tempo, sim, "todas" as partes do todo da obra, numa espécie de transe atemporal e consciente, como o olho do furacão ou um limiar que é e não é ao mesmo tempo, está e também observa. Em algum momento, na arte, eu achei que estivesse indo estudar #espiritualidade, o subconsciente ou a #fisicaquantica, então, descobri que nunca estiveram separados, nem antes e nem agora que parecem se revelar mais para mim, eu achei que sendo eu homem, eu estivesse estudando o #feminino, então, constatei que nunca estiveram separados, nem antes e nem agora que é mais consciente, se acolhem e dançam. Talvez, ser humano seja esta bênção e aparente limitação da matéria, de poder apenas e tanto, assimilar uma coisa de cada vez, então "descobri" que o micro e o macro se completam e complementam aqui também no humano, se fundem sem se diluírem, o Todo também está na minúcia, como a semente também está na árvore e na fruta, a fruta na árvore e na semente, ou a árvore na semente e na fruta, o divino nunca esteve separado do humano também... Nem a sacralidade separada da arte, nem do tido como banal, mesmo aquela arte que não envolve um tema religioso e nossa moralidade mental e humana teima em considerar profana, ela é também sagrada. Mas a "semente" há de ser plantada, compreendida, respeitada e amada também e apenas como parte pequena, frágil potência que é, regada pela disciplina humana ou pela aparente indisciplina orgânica e superlativa da vida e da Natureza amorosamente implacável e atemporal. Eu escrevo não para ensinar ou induzir alguém a como ler a obra, mas para que a obra me ensine mais, a me ler e também a ler o nosso tempo.

Eu estou escrevendo muito e tão pouco, com a humildade e frustração de entender e aceitar que a escrita não dá conta do que a nossa sensibilidade sim dá, quando ativa e consciente aqui dentro do coração! Não me refiro ao coração de forma romântica ou platônica, mas à sabedoria superlativa que também o órgão físico central do nosso corpo manifesta e evoca ao soar a música que orquestra humildemente e despretensiosamente a todos os órgãos e ínfimas partes de um copo.


Percebendo que a imensidão ou pequeneza da experiência que ultrapassa o nosso corpo físico ou seus sentidos, não o despreza e nem ao aparentemente limitado mundo material ao qual nos acostumamos a chamar de "Real" como se todo o resto fosse mera fantasia, quase em detrimento das sutilezas e outras dimensões. Pelo contrário, a imensidão ou pequeneza da experiência que ultrapassa o nosso corpo físico apoia-se nele também como mola propulsora e se inscreve poeticamente também em moléculas, células, átomos e músculos. Como poderia ser alheia se o "oposto" também é real?

Às vezes eu me pergunto se eu ainda sei o que estou fazendo, percebo que o que "sei" são apenas partes e para o restante, meu respeito e atenção, não apenas o resultado que minha mente poderia computar ou meu ego desejar, preciso confiar no Todo, nesta indisciplina orgânica e sábia da Vida e da Natureza que faz de uma semente uma floresta ou memória, música, arte... Especialmente quando há entrega e se reconhece o que tenho chamado de "Potência da Vulnerabilidade Consciente"!


"E como seria se invertêssemos as posições?"


Para alguns, Cristo no lugar de Maria e Maria no Lugar de Cristo, talvez soaria como um sacrilégio, mas para a Arte, à Natureza e à Vida, é puro movimento criativo, puro êxtase entre Yin e Yang que dançam e sempre dançaram, tão simples e desprentenciosamente quanto o ato de "EXpirar e INspirar" pelo mesmo pulmão...."

"Voltamos da periferia ao Centro de Sampa, ao início histórico da Cidade". A cada segundo de dilatação sensorial, eu sinto e também percebo mais e mais a Arte também como este lugar sagrado no qual, no processo de nos "esvaziarmos" de si, podemos repousar nesta consciência integrativa capaz de visitar e acolher o "lugar do outro", e ironicamente também re-ofertar aos sentidos o estado de estar onde estamos e co-existimos, co-habitamos em multi-tempos, a Arte, por essencialmente não se prender ou se limitar demasiadamente a nada, nem mesmo aos dogmas religiosos e sociais, é capaz de tudo sentir como um coração empático, humano, de MÃE, de Cristo, de PAI... Cada pulsar aqui ou aí é um convite para o retorno à nossa essência!


"De tão profunda a raiz se eleva nas alturas" Frase de autoria da minha parceira nesta aventura @tieppodebora!


SINOPSE: Pietá é um símbolo sacro do momento célebre no qual Maria acolhe o corpo desfalecido de Jesus Cristo. Na #PerformancePieta o recorte infinitamente representada por grandes artistas ao longo dos séculos em esculturas e pinturas, ganha uma versão viva e singelamente "dançada", resultado do revezamento cíclico dos performers entre as posições originais de Maria e Jesus, entre Yin e Yang, noite e dia, masculino e feminino em um só e sagrado coração.

III Performance Pietá na Praça Floriano Peixoto, Santo Amaro, 12-05-19 (Dia das Mães, domingo) Foto do Anderson Mendes.


DEPOIMENTO

"A ação se desenrola num movimento cíclico de vida, morte e

RESSURREIÇÃO, ela nos surpreende cada vez que a realizamos com muitas sensações e novos significados. Em uma ocasião fizemos num local onde havia muitos moradores de rua estendidos pelo asfalto, de alguma forma sentimos que a ação acolheu o sentimento de abandono que pairava no ar e reverberou um amor maternal. Também foi inevitável deixar de sentir a dor de tantas Marias desse mundo que perderam seus filhos para o sistema violento. Cada vez que nos erguemos do chão como que ressurgindo, para mim, é uma lembrança do milagre e da fé."


Débora Tieppo (Atriz/Performer) .


Curiosidades

Eu tive uma insolação na terceira apresentação da performance, bem

na páscoa do ano passado, realizada no Largo da Piraporinha aqui na Zona Sul. Um antigo desejo realizado de trazer as ações que só tinha realizado no Centro para a periferia. Eu não cheguei a ter queimaduras de insolação, usava protetor solar, mas senti um forte mal estar que senti como desidratação e em seguida, depois que tudo tinha passada e já chegava a noite, fiquei de cama! Morri!


Repassei mentalmente toda a ação e me recordei que evitei beber muita água com receio de sentir vontade de fazer xixi durante a ação, lembrei que um dos estados corporais que mais me apareceram nesta vez foi justamente o impacto da perda e da "morte repentina" pra quem a ignorava como fenômeno normal desta existência e é pego de sobressalto. Na #artperformance não forçamos nada e nem encenamos, não interpretamos, seguimos um programa poroso criado e deixamos a vida se manifestar em seu tempo e próprio modo, nos esvaziamos. O choro brotou abundante, o que também deve ter contribuído para me desidratar... Um dos meus estudos quando sou eu o Cristo e quem "morre" é ir percebendo, integrando, relembrando e entregando paulatinamente cada parte do corpo, mas o "Centro Ativo" eu não posso soltar ou a minha parceira provavelmente não conseguiria segurar os meus 78Kg em seu colo de forma segura e confortável. Somente sobre o chão, consigo "completar" esta entrega e também é no chão, sobre a terra e o cimento, no ponto Zero, onde enfim descanso fisicamente e onde recomeça tudo: o renascimento. Agora seri Maria, a mãe piedosa, a virgem escolhida, mas também sou apenas um pai se relacionando com a filha. Meu primeiro sintoma físico da insolação - quando eu ainda não sabia que era isso - foi me sentir "encandeado" com a luz do sol, dor de cabeça e uma pulsação insuportável por detrás dos olhos, tomei uma água de coco em seguida da ação o que deve ter contribuído demais para minha recuperação e diminuído a gravidade!


Esta ação foi mais cedo que o comum, marcamos para começar as 15h e atrasamos 30min, durou 60min, o sol também contribuiu para a ação com sua carga de energia e todo seu simbolismo associado ao Cristo, o Sol, a Luz que tudo revela, trazendo à consciência o que era sombra, Nutridor Essencial da semente frágil que germina, junto com a terra, água e ar, para recarregar o novo ciclo que acena. A ação é repetitiva, mas a "história" nunca é igual, sempre é nova e única!


MAS O QUE É PERFORMANCE?


Para quem gosta, quem não entende ou até mesmo quem detesta a Arte Performance, eu juro que eu gostaria muito de ajudar com uma definição legal e atraente, para pelo menos lhes oferecer uma entrada que lhes soe segura para vivenciarem a riqueza desta linguagem artística, mas todas as que achei não definem nada - acho isso o máximo - elas ficam na chatice de datas e nomes históricos para justificar ou contextualizar seu surgimento e eu fico na sensação de que se eu conseguisse expressar uma "definição" talvez matasse a minha razão de realizá-las.


No mais, gosto muito das INdefinições de Performance contidas num documentário nacional, uma delas em especial, a da Charlene Sadd: "Será que a questão está em conceituar o que é ou experimentar o que esse o que é possibilita?" e uma dica da artista que é ícone mundial desta linguagem artística, a Marina Abramovic: "Nascida em Belgrado em 1946, Abramovic trocou a pintura pela performance ao descobrir que os rastros tridimensionais (e reais) deixados no céu por um avião eram infinitamente mais interessantes do que suas telas..." 15º Festival Internacional De Arte Eletrônica Videobrasil - Performance, Sesc - Sp; Associação Cultural Videobrasil - Edições Sesc


Tá bem, eu sei que não ajudei muito na definição, deixo o link do documentário e convite para você vir não-entender, mas sentir junto se desejar: https://youtu.be/MxsVk0CcTos


Os mistérios da Pietà de Michelangelo


Os mistérios da Pietà de Michelangelo ainda não foram todos revelados. É ali, nos detalhes, que o essencial sobrevive sempre.

(...)

Em Nova York, Robert Hupka fez um furo no teto para captar o rosto de Cristo, sempre escondido ao nosso olhar (frontal), e que só o artista, antes dele, havia contemplado. É surpreendente! Porque o rosto está vivo, é de uma extraordinária serenidade. Sorri, confiante, beata bem-aventurança. Nunca um rosto humano tinha nascido do mistério divino da Arte com tanta força consoladora.

(...)

Maria, segura entre os braços, Cristo morto, deposto da Cruz. Notamos que a escultura se inscreve em contraste com a exuberância dos tecidos. Nada mais aqui do que a beleza ideal de uma jovem mulher, arquétipo da feminilidade. O que prevalece é a acolhida, necessariamente silenciosa: impressão acentuada pelo gesto da mão esquerda, aberta, que parece dizer: "Assim é".

(...)

Cristo está entregue*. Parece mais velho do que Maria, menor do que a mãe, do que a mulher, do que a esposa, em cujos braços desliza e se deixa deslizar. De fato, aquele corpo jovem e belo não mostra nenhum sinal de rigidez. Ao contrário, em forma de S, é flexível, sensual, lânguido. Os seus dedos acariciam o tecido, o pé está equilibrado em uma pedra, no braço e no pescoço as veias cheias de sangue pulsam no ritmo lento do encanto.

(...)

As revelações importantes, sacras, nunca podem ser feitas de imediato. Elas estão sempre veladas: na poesia, nas fábulas, nas parábolas. No mármore. Lá esperam, às vezes por um longo tempo, até que alguém as capte. Porque, sem uma distância, um véu, o essencial soa como um disparate.


Artigo publicado no jornal L'Osservatore Romano, 02-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Texto do artista plástico e calígrafo francês Luc Templier, ex-curador do Musée de la Famenne

*tradução ajustada ao contexto


http://www.ihu.unisinos.br/170-noticias/noticias-2014/528852-um-novo-olhar-sobre-a-pieta-de-michelangelo-simbolo-para-o-nosso-mundo Luc Templier, ex-curador do Musée de la Famenne sobre a Pietá de Michelangelo.


Vídeo: https://youtu.be/neALguZiHOk


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Registros abaixo da última ação por: Rafaela Franco e Gustavo Ronconi


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© 2016 Roni Diniz . Ator, Fotógrafo e Designer Gráfico.