Nasceu a Lótus completa, padmasana. Como lidar com a dor?


Quando eu recebi o primeiro certificado no Nível 1 de Yoga, eu não fiz post, mas celebrei bastante, tivemos a prova em agosto, tive que separar 5 páginas de cada apostila para estudar por dia, durante a viagem de férias que fiz ao Jalapão. Na real, sei que o certificado é importante para o nosso mundo, quero sempre o meu sim, já coleciono alguns, mas para mim, meu verdadeiro diploma de Yoga até aqui é a Flor de Lótus Completa! Não necessariamente a foto ou simplesmente o fato de conseguir fazer, mas todo o processo, consciência e o diálogo com o meu próprio corpo que ela demandou ou proporcionou…

Na real, eu estou pouco me lixando para me “iluminar” ou para provar mais alguma coisa para alguém ou para as muitas das vozes sociais que ainda habitam meu mundo interno e ainda me cobram resultados. Eu estou interessado hoje e cada vez mais é em saber se estou sendo cada vez mais eu mesmo, se o que expresso é autêntico e, de fato, se cada escolha minha realmente fala a minha verdade… Eu vou prestar contas comigo mesmo e tenho prestado! Quando eu como algo que meu corpo não queria comer, geralmente eu presto contas é no mesmo dia! Assim também acontece quando eu minto para mim mesmo...

Por isso, por atual e cada vez mais consistente cultivo do desapego aos resultados é que nunca me preocupei antes com o fato de não conseguir sentar em flor de lótus e hoje reflito, me recordo que foi exatamente este cansaço de cobranças externas e autocobranças uma das coisa mais relevantes que me fez me aproximar finalmente das pessoas exatas que foram uma real contribuição para minha evolução até aqui, bem como o meu afastamento de outras. Comecei a meditar somente há 4 anos atrás, justamente porque os meios que me foram ensinados não exigiam nada dessas cobranças pesadas e invasivas, meditei, durante os primeiros períodos, sentado numa cadeira mesmo, apenas com o objetivo de relaxar, de fazer meus trabalhos com um corpo menos tenso e experimentar novos resultados!

Na minha primeira iniciação em Kriya Yoga, ano passado, num retiro de 3 dias, algo similar, porém, mais ferramentas, mais práticas, sempre acolhendo tudo com este “formato”: “Praticar “regularmente”, isto é, aceita-se falhas, mas não desistir”, “Perfeito é superficial porque leva ao estresse”... Esta fala da nossa mestra de Kriya Yoga está anotado a lápis na minha apostila por mim mesmo. Uma das maiores graças do Yoga para mim é justamente reconhecer que o meu corpo não é um empecilho, mas sim um dos meus maiores motivadores e expressão da minha evolução, ele me comunica tudo e cada vez mais claro, ele me incentiva e vai me mostrando cada lugar aonde eu devo atuar, não é apenas o “conseguir fazer”, mas sim o “COMO” eu escolho fazer para chegar!

Aprendendo a lidar saudavelmente com a dor

Então, nosso professor de Yoga é mesmo bem rigoroso, mas respeita e incentiva a escuta do próprio corpo por cada um, para que “vá no seu limite”, “Keep the balance”, porém, sempre solta a frase com seu inglês carregado de sotaque indiano: “No effort, no benefits!” Eu acolho a motivação com muita cautela, pois reconheço que já fui viciado no “esforço”, mas era, por síndrome de heroísmo, perfeccionismo e baixa autoestima, enfim… Hoje, busco filtrar as admoestações pelo autoamor. Então, nunca me cobrei conquistar nenhuma postura, pelo contrário, faço de mim e do meu corpo, meu laboratório e vou percebendo o que a prática vai realizando naturalmente, pela repetição executada sem ansiedade, com presença e consciência!

Assim, numa outra experiência mais recente, que foi o retiro de silêncio no templo Zu Lai, em novembro, o único retiro que eu fiz este ano, durante o segundo dia de silêncio, entre meditações de 30 e 40 min, numa das tardes, a Monja responde muitas dúvidas e queixas de dores nas pernas pelos participantes (era possível deixar perguntas escritas numa caixinha). Então as falas amorosas da monja começam a complementar os meus processos de Yoga também. Eu não sentia absolutamente nenhuma dor nas penas até então, meditando sempre em semi-lótus. Ela fala coisas que não eram bem novidades para mim, mas repousam diferentemente em mim, agora neste estado de auto-observação dilatado e em silêncio interno! “As pernas são para o corpo o que uma raiz é para uma árvore! As pernas da maioria das pessoas estão envelhecidas antes do tempo", constatou ela. "Nossos pés é pernas são repletos de canais essenciais para o fluxo da energia em nosso corpo, para a saúde e iluminação espiritual". Não é a toa que as representações da maioria dos mestres que se iluminaram, geralmente os apresentam sempre na postura da flor de lótus. É claro que tocar nestes condicionamentos do nosso corpo que refletem bem o nosso estado mental e espiritual, vai mexer com a nossa zona de conforto e vai doer! "A dor existe e está aí, tudo bem! Você pode conversar com ela, a dor é física apenas, mas se torna altamente nociva quando atribuímos sentimentos, explica, por exemplo, sentindo raiva da dor ou do fato de sentir dor, assim chega e fica o temido sofrimento que é diferente de dor.” Ela explicou com outras palavras que a dor é uma comunicação do corpo, dizendo que ele está tentando abrir aquele canal bloqueado naquela parte ou órgão, o corpo querendo nos ajudar! Já pensou nisso? Seu corpo está tentando te ajudar. Isso não só me fez sentido racionalmente como ressoou em meu Ser. Sem que o fluxo energético esteja livre, nosso corpo não é nutrido o suficiente, com o tempo, estes “maus-tratos” resultam nas doenças. Normalmente odiamos as doenças e as dores, mas elas são como “recados” do nosso corpo, dizendo o que precisamos mudar para ficarmos bem, porém, normalmente, vamos lá com analgésicos e o calamos ou o dopamos com prazeres viciantes. Então, nas minhas meditações ali, naquele lugar “blindado”, meditando em silêncio, sem luzes místicas, insighs e nem mesmo inspirações! Não tinha como não olhar para mim e para o meu corpo! Era como se minhas pernas me dissessem: “Bóra?” e eu disse “Vamos!”, afinal eu sei tratá-las com escuta e amor… Sei?

Sem atribuir sentimentos às dores, realmente, era muito mais suportável, ainda mais depois de todo o treinamento meditativo, mas doía pra caramba, na respiração, eu ía cedendo espaço…. E o finzinho da expiração era a pior parte! Me lembrei das primeiras aulas de dança contemporânea da minha vida quando eu não entendia nada desta linguagem de “ganhar espaço no corpo”, mas tinha vergonha de perguntar e parecer tolo. Com o tempo fui entendendo que o “espaço” se tratava de alongamento e seu maior alcance resultante… Me lembrei daquelas falas dos professores e professoras de dança que eu já tive: “Vai negociando com a perna..” E naquele tempo eu imaginava mesmo os músculos e nervos conversando: “Você poderia por favor me ajudar aqui para eu ir um pouco mais longe?”, às vezes acontecia umas discórdias e briguinhas, sabe?! Às vezes a gente se machucava também e precisava de tempo e mais escuta ativa para seguir...

Então, no retiro, nasceu a minha primeira meditação inteira em flor de lótus! Nem preciso dizer que a meditação toda, se resumiu no diálogo com a dor, né? Mas, eu me ouvia: “Se não for aqui, quando e onde?” E quem disse que isso não é meditar? Por acaso o primeiro degrau também não é a escada?

No outro dia, fui ansioso montando a flor de lótus para as meditações, eu sabia que era uma flor estranha e desajeitada a minha, mas também confiava que o meu corpo sabia o caminho e iria se ajustar aos poucos e no “seu tempo”, a gente tinha tempo! Agora já era o terceiro e último dia, o que mais me doía nem era tanto as pernas, mas as juntas dos pés, uma específica entre o tornozelo externo e a “barriga do pé”, então fiz as últimas meditações em semi-lótus, afinal, não estou numa competição e tenho tempo, é o meu tempo, do meu corpo… Glória?! Nós nos respeitamos! Mas para a minha surpresa a semi lótus doeu tanto quanto a completa, dada a sensibilidade, risos! Não me machuquei, saindo da postura: vida normal!

E voltando ao dia-a-dia, minha decisão flexível, regular, foi a de aderir à postura também nas minhas meditações diárias e assim tenho feito há um mês, com flexibilidade, com a liberdade de um dia ou outro fazer com a semi-lótus, ué! Para a minha surpresa, na semana passada o professor de Yoga iniciou a aula pedindo para a gente fazer a lótus completa quem conseguisse, eu monto ela sem problemas, mas com a dorzinha presente de sempre… Então ele anuncia a postura para começar: Lolasana - postura do balanço. Esta postura requer que o praticante, sentado em lótus completa, se sustente inteiro, braços esticados sobre as mãos abertas contra o chão. No semestre passado, quando nos ensinou ela pela primeira vez, eu tentei fazer, tenho força suficiente nos braços, mas fui em meia lótus, logo não me levantei nenhum centímetro do chão! KKKKK, tudo bem, na época eu não fiquei bravo, apenas entendi que alguma coisa faltava, mas não sabia o que. Desta vez, após cruzar as pernas e me suspender sobre as mãos, testemunhei algo que foi muito surpreendente para mim! Meu próprio corpo fez naturalmente algumas contrações e ajustes nas pernas “para dentro”, em busca do equilíbrio e minha flor de lótus se encaixou perfeitamente, “justinha” pela primeira vez! Claro que doeu horrores! Mas era aquela dor, aquela que eu já conheço, “meu corpo liberando os canais”, debaixo do meu olhar e decisões amorosas! Aguentei o quanto eu pude, respirando e muito feliz! Não entendia tudo ainda que eu escrevo agora, mas sabia que algo mágico tinha acontecido gradualmente. Entendi que anteriormente talvez eu estava de fato, sobrecarregando meu pé por falta do espaço necessário para o encaixe adequado que o meu corpo ainda não conhecia, olha que pés generosos eu tenho! Ganharam mais flexibilidade por causa da sua boa vontade. Por enquanto, entendi que as pernas não ficam “desmaiadas” na flor de lótus como parece quando olhamos as imagens dos gurus, mas há uma suave contração para dentro, assim como aquela que fazemos com o abdômen para a coluna ficar ereta, porém sem esforço ou tensão...

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Onde eu fiz a iniciação em Kriya Yoga?

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